Os Orixás são imanências divinas, partes integrantes do aspecto criador de Deus correlacionadas a cada elemento existente na Natureza  e também aos seres humanos. Controlam vibrações e energias da natureza e, em alguns casos, mais de um tipo delas.

 

OBS 1: "Imanência" é o oposto de "Transcendência". O que transcende extrapola, extravasa; o que é imanente está contido em, faz parte de.

 

OBS 2: Algumas escolas umbandistas preferem utilizar o termo "Trono Divino" em lugar de "Imanência Divina". Ambas as terminologias estão corretas.
 

          Por serem "partes imanentes" do Criador, NÃO SÃO "deuses" e nem tampouco espíritos, mas faces diferentes do mesmo Deus. São, portanto, vibrações divinas que - nos terreiros - são representadas por espíritos de grande alcance consciencial que atuam em legiões e falanges de trabalho dentro de cada uma dessas vibrações. Assim, na vibração da "Imanência Divina que chamamos de Ogum", por exemplo, há um grande número de espíritos trabalhadores, os quais denominamos "falangeiros de Ogum" e que se apresentam através de posturas, gestos, comportamento e aparência (aos médiuns videntes) com o arquétipo próprio do guerreiro. Para cada Orixá (ou imanência Divina) há, dessa forma, grande quantidade de falangeiros que os representa. Não se deve confundir, portanto, o "falangeiro de um Orixá" com o próprio Orixá (ou Imanência Divina)! O primeiro é um espírito em nível evolutivo muito acima do nosso; o segundo é parte do próprio Deus! O falangeiro, por ser espírito, incorpora! O Orixá, por ser parte de Deus, irradia sobre a Criação! 

 

OBS 3: Não nos cabe comentar as visões que outros segmentos religiosos têm acerca do Orixá.

 

          A Doutrina dos Sete Raios agrupa vibrações semelhantes (ou com pontos em comum) em "faixas vibratórias" identificadas pelas sete cores do arco-íris e suas combinações. Outras escolas umbandistas as agrupam nas chamadas " Sete Linhas de Umbanda". Ambas as formas estão corretas. São apenas métodos distintos para descrever a mesma coisa.

 

              Em "A CENTELHA DIVINA" são cultuados 16 (dezesseis) Orixás principais. Em outras correntes de Umbanda, nem todos são considerados como partes integrantes do culto. Há, inclusive, segmentos religiosos que entendem que determinados Orixás não poderiam jamais ser cultuados na Umbanda, afimação da qual discordamos veementemente, pois entendemos que, sendo imanências divinas - e Deus estando em todos os lugares e não sendo propriedade de ninguém - todas as vibrações de Orixás são acessíveis a qualquer ser humano ou religião. Por isso, a Doutrina dos Sete Raios utilizada na CENTELHA considera as 16 vibrações abaixo listadas, que representam os Orixás mais conhecidos no Brasil. 

 

          Nas linhas abaixo, há descrições de arquétipos e particularidades de Orixás, tal como entendido pela Doutrina Umbandista. Informações adicionais e importantes ao entendimento de seu papel vibratório podem ser encontradas em A Doutrina dos Sete Raios.

   

 

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OS ORIXÁS

OXALÁ

     Deriva a palavra “Oxalá” do vocábulo “Orixalá”, que quer dizer “O Rei dos Orixás”, e é empregado para identificar o Orixá criador de tudo o que existe ou, em outras palavras, a imanência divina fecundadora e responsável pela vida e criação. É, ainda, o pai da paz, da união, da compreensão, do entendimento, da fraternidade e da comunhão entre toda a Humanidade.

 

     Por ser o "fecundador", representa o princípio de tudo, regendo, portanto, sobre toda a Criação (ou sobre toda a natureza), regência essa compartilhada e distribuída entre os outros Orixás, demais imanências de Deus.

 

     Os antigos africanos diziam que Oxalá concede três forças básicas à sua criação:

 

IWA – O poder de existir,

AXÉ – O poder dinâmico e

ABÁ – O poder de ordenar o Axé.

 

     Ou seja, todos os seres possuem, cedido por Oxalá, o poder de criar e, não apenas isso, mas criar segundo sua própria vontade, ratificando o ditado que afirma que todos possuem uma parcela de Deus em seu espírito, ou então a máxima: “Todos vós sois Deuses”. 

          Por ser a origem de tudo e de todos, Oxalá possui o controle sobre todos os tipos de energias, incluindo as que são controladas por cada um dos demais Orixás. Por este motivo é ele quem atua, sempre que preciso, como mediador, extinguindo quizilas e discórdias, tanto no plano material quanto no espiritual, produzindo, também, soluções e definições para as situações mais embaraçadas. 

 

           Na Doutrina dos Sete Raios, Oxalá é representado pelo triângulo branco, de onde partem todos os raios, numa clara alusão à face tríplice do Criador nas mais diversas culturas, como segue:

 

  • Pai, Filho e Espírito Santo para o Cristianismo

  • Brahman, Shiva e Vishnu para o Hinduísmo

  • Guaracy, Yaci e Rudá para os povos indígenas

  • Zâmbi, Oxalá e Orunmilá (ou Ifá) OU Obatalá, Oxalá e Oduduwa para as tradições africanas

 

         Na Umbanda, integrando a Linha de Oxalá, destaca-se o líder de uma grande legião de falangeiros. Seu nome é “Simiromba”, o patrono de "A CENTELHA DIVINA", e é sincretizado, na Igreja Católica, com São Francisco de Assis.
 

          Os filhos de Oxalá costumam ser calmos, amáveis e prestativos, angariando facilmente a confiança, o respeito e o carinho das pessoas. Gostam de organização e de organizar, por isso têm tendência à liderança nata. Esforçam-se para demonstrar o seu ponto de vista, pois são um pouco teimosos. Todavia, nunca com violência, pois costumam ser bastante pacíficos. Normalmente tendem à distração e ao esquecimento, embora, quando desejem, consigam manter-se concentrados em determinado assunto ou objeto, esquecendo-se, nesse caso, de todo o resto a sua volta. Quando estão com as energias descontroladas tendem a certos vícios, principalmente os que causam alucinações e distanciamento da realidade, como as drogas. Numa fase mais branda do descontrole energético, é a distração que se faz mais evidente, podendo ocasionar sérios problemas físicos e emocionais.
 

          A cor utilizada por Oxalá em guias, objetos e vestimentas é o branco, numa clara alusão à perfeição, à paz, e também à união de todas as cores, representando a união de todas as energias e de todos os Orixás, sobre os quais têm pleno comando. Seu símbolo é o pombo branco que, como tudo o que lhe diz respeito, representa paz, harmonia e esperança.

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EXU

 

           A palavra “Exu” é aqui empregada, inicialmente, em referência ao Orixá Exu, devendo-se distinguir alguns conceitos entre o "ORIXÁ" propriamente dito e os seus falangeiros, conhecidos na Umbanda como "Povo de Rua". “Exu”, em yorubá, significa “esfera”, ou seja, aquilo que não tem começo e nem fim, o que dá não só a idéia de infinito, como também de mobilidade, função básica atribuída a este Orixá, uma vez que tem por missão fundamental servir de mensageiro e intermediário entre os homens e os demais Orixás, seja diretamente, no plano Astral, ou através do jogo de búzios, onde desempenha papel importantíssimo, uma vez que é Exu quem leva as perguntas aos Orixás e traduz suas respostas para a linguagem humana durante o jogo, facilitando a interpretação de quem o estiver realizando. Por isso, também, recebe alcunhas como “servo dos Orixás”, “Mensageiro dos Orixás” e “Compadre”. Exu também é conhecido como “Aluvaiá”, “Cariapemba” ou “Elegbara”, que significa “o senhor ou o dono do poder”, em alusão à capacidade que tem de realizar grandes trabalhos de magia.

            Por ter como função básica o intercâmbio entre o homem e os Orixás, ou seja, entre o mundo material e o espiritual, Exu pode ser considerado o dono de todos os limites ou, ainda, o dono de todas as forças que percorrem os limites e os atravessam, capazes de estabelecer ligações entre ambos, sejam no tempo ou no espaço. Por isso é considerado o Senhor das Porteiras – limite espacial, físico - e, também, o Senhor dos Horários – limite temporal, imaterial -, sendo o seu momento de maior força, justamente, o limite entre um dia e outro. Todavia, se tem o poder para ligar, também possui o de impedir qualquer ligação ou comunicação, separando ou confundindo. Assim, é capaz de possibilitar a criação, mas também a destruição.


          Normalmente, Exu é o primeiro Orixá a ser tratado em alguns rituais. Dizem as lendas – de várias maneiras - que, se não fosse assim, poderia atrapalhar as demais oferendas. Uma análise mais profunda, contudo, revela a razão para que se dê tal fato, mesmo na Umbanda. Ora, se Exu faz a ligação entre o ser humano e os Orixás, então o responsável pela construção da ponte inicial entre o mundo material e o espiritual que permitirá ao Orixá captar as vibrações de qualquer ritual, é Exu! Se ele próprio não estiver fortalecido e com suas energias em equilíbrio, como poderá estabelecer a comunicação que o médium deseja?


Apesar de estabelecer a comunicação com qualquer Orixá, é com Ogum que Exu tem maior afinidade. Há terreiros, inclusive, que consagram filhos de Exu a Ogum, afinal, ambos possuem estreita ligação com um mesmo elemento, o fogo, e possuem personalidades arrojadas e decididas. Em algumas regiões da África, Ogum e Exu eram vistos como um mesmo Orixá, dado sua similaridade. Porém, enquanto Ogum, durante demandas é comparado ao comandante, ao general, compara-se Exu ao soldado que, sob o comando de Ogum, vai para o campo de batalhas, lutar diretamente pela defesa dos médiuns e do terreiro.

 

 

           A personalidade de Exu tem algumas particularidades que serão vistas adiante, mas há alguns traços que podem ser considerados gerais: Exu é considerado o mais sutil e astuto de todos os Orixás. Diz-se que possui grande e incontrolável senso de humor, capaz de brincadeiras com seres humanos e com os próprios Orixás. Todavia, quase não possui quizilas com outras entidades ou mesmo com elementos materiais, como comidas e bebidas, aceitando quase tudo que lhe oferecem. Por isso também é conhecido como o Orixá que “come tudo o que a boca come”. Sua proximidade ao homem o faz, via de regra, de fácil relacionamento. É aquele que pode enganar, ludibriar e confundir, mas também soluciona problemas, ajuda e demonstra novos caminhos. A astúcia de Exu está claramente indicada em um tradicional verso sagrado yorubá que diz que: “Exu é capaz de carregar o óleo que comprou no mercado numa simples peneira sem que este óleo se derrame”, e também em outro: “Exu matou um pássaro ontem, com a pedra que jogou hoje!”.


            Como qualquer Orixá, Exu também pode ter filhos de santo, ou seja, também pode ser um dos primeiros Orixás de uma pessoa. É comum que os terreiros de Umbanda, de regra geral, não aceitem tal condição, o que ao nosso ver, é errado, já que uma pessoa que tenha o Orixá Exu como sua principal vibração, permanecerá o tendo, estando no Candomblé, na Umbanda, no Budismo ou na Igreja Evangélica. Há, ainda, pessoas que se sentem incomodadas por serem filhas de Exu. Contudo, se o médium nasceu com esse tipo de energia como principal, é Exu quem deverá ser tratado como seu Orixá.

 

           Algumas características podem ser apontadas em pessoas que o possuem como Orixá: Normalmente são indivíduos dinâmicos e dotados de grande vitalidade. Têm tendência ao excesso em alguns prazeres da vida, como bebida e comida. Gostam muito de brincadeiras, festas e ambientes movimentados, embora, às vezes, possam ser insolentes e mal educados em algumas reuniões. Geralmente são bem humorados, porém, a falta de posturas de moral rígidas e inabaláveis os faz oscilarem freqüentemente entre o bem e o mal, podendo tender para ironia, mentira, deboche e intrigas ou para o auxílio incondicional. Aliás, não costumam recusar ajuda, tanto para problemas financeiros quanto sentimentais. Não reclamam de ouvir os outros, pois entendem com facilidade os pontos de vista alheios. Podem ser bons conselheiros se não estiverem envolvidos sentimentalmente com a questão ou se houver, de preferência, alguma recompensa pelas suas ações. Sentem atração por dinheiro, o que não quer dizer que queiram ficar ricas. Podem alcançar prestígio e obter sucesso em seus empreendimentos através da comunicação, seu ponto forte. Podem, também, ter sorte em jogo e são pessoas naturalmente sensuais. Se estão com as energias controladas, ou seja, com o seu Orixá Exu bem tratado, podem caminhar pela vida sem qualquer problema financeiro ou sentimental. Em contrapartida, estando com as energias desequilibradas, tendem a se tornar pessoas inclinadas à marginalidade e aos vícios de toda ordem, podendo também ficar suscetíveis a assaltos, violência e morte.


            Exu rege na transição para o primeiro raio, ou seja, entre o negro e o vermelho, que aliás são as cores a este Orixá relacionadas. A explicação é que o vermelho é a cor de menor vibração do espectro visível humano (o primeiro raio), e abaixo da mesma não existe luz que o homem possa enxergar; há apenas, simbolicamente, o negro. A combinação das duas cores representaria o ponto limite entre o que o homem pode ver e o que não pode, numa alusão, talvez, aos espaços material e espiritual, por onde Exu transita. Outra análise associa o negro ao oculto e o vermelho ao princípio dinâmico, através do qual o oculto se manifesta. Um terceiro enfoque encara o negro não apenas como o oculto, mas como tudo que a ele é relacionado, como a própria magia, e o vermelho como sinônimo de força. A união de ambas as cores retrataria a força de magia ou de manipular o oculto que esse Orixá possui.

 

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                                                                  NANÃ

 

          Também é denominada de Nanã Buruku (buru = espírito; iku = morte). Suas vibrações são encontradas em todos os lugares onde há ensinamento e aprendizado, pois é a Imanência Divina relativa à Sabedoria (por isso é representada pela figura de uma anciã).

 

          Nesse sentido, entende-se que suas vibrações estendem-se não apenas no campo material, mas também no mundo espiritual, onde há grande quantidade de eguns (desencarnados) em aprendizado constante. Aliás, pode-se dizer que no Mundo Espiritual é onde há maior concentração das vibrações de Nanã, já que a morte é a grande ampliadora da consciência, a grande professora, aquela que mostra a verdade dos fatos e o que realmente tem valor para o espírito. É aquela que aponta os erros e os acertos; as qualidades e os defeitos desenvolvidos em vida. É na morte que o espírito deixa para trás os véus da ilusão material, reflete sobre as lições passadas na matéria e prepara-se - através de muito estudo - para as novas experiências reencarnatórias. A morte é, portanto, para os recém chegados ao novo plano existencial, o "nascimento" para novas oportunidades de conhecimento e aprendizado. Se Nanã é a própria Sabedoria, então são as suas vibrações que atuarão a partir daí sobre cada egun recém desencarnado. Por isso, ainda que o arquétipo de Nanã tenha correlação com maternidade (como outras Yabás), alguns pesquisadores admitem que ela personifique mais a mãe dos mortos que dos vivos, o que levaria a crer que a maternidade à qual está relacionada refere-se muito mais à atuação espiritual do que à geração física como Oxum. Daí o seu nome "Buruku".

 

          Nanã não só está ligada aos espíritos que deixam à matéria, mas também aos que reencarnam, pois, para que haja o renascimento, é necessário, antes, um período de aprendizado e reestruturação ainda no plano espiritual. É, portanto, o símbolo da morte necessária à transformação e ao renascimento, o que a diferencia de Omolu, encarregado tão somente do desprendimento do espírito do Corpo Físico, sem a visão mais ampla e complexa do sequenciamento de tal situação.

 

          Ainda simbolizando a morte necessária para que haja a reconstrução, Nanã é associada aos pântanos e, por extensão, a todos os locais onde haja lama ou lodo, ainda que no fundo dos rios, lagos ou oceanos. É nesses locais que ocorre o depósito de grande quantidade de material orgânico, restos de animais e vegetais já sem vida, que, decompondo-se ali, irão liberar os elementos necessários à formação de novas vidas. É nesse sentido, também, que Nanã pode ser associada à chuva que encharca a terra arrastando consigo vegetação e causando destruição, mas que, apesar de tudo, umedece e prepara o solo para a agricultura, fertilizando-o e permitindo que novas sementes germinem.

 

          Não é à toa que lendas africanas – Nanã é um Orixá de origem Jeje – apontam este Orixá como mãe de Omolu e Oxumarê. Suas ligações com a morte e com os ciclos que regem a vida humana incluem perfeitamente os conceitos associados a ambos. Por isso, também, é a Orixá feminina mais séria, temida e respeitada do panteão das entidades da natureza, embora possua a ternura maternal típica das velhas avós terrenas, com quem também é comparada, sendo, devido a este motivo, chamada carinhosamente de “Cacurucaia”, que quer dizer “vovó”.

 

       No Candomblé, há várias qualidades de Nanã, dependendo do elemento específico de regência ou da função que desempenha dentro do ciclo vida-morte-vida. Na Umbanda é tratada apenas como Nanã ou Nanã Buruquê, variação de “Buruku” (espírito da morte). A cor dos objetos e das guias associadas à Nanã é o roxo.

 

           De acordo com tradições africanas, Nanã carrega graciosamente um feixe de ramos de palha de dendezeiro ou de palha da costa, denominado “ibiri”, onde cada ramo representa um filho que possui (referindo-se aos vivos e aos eguns). Na Umbanda, as vezes esse objeto é substituído por uma vassoura de palha que, analogamente, pode possuir a mesma representação do ibiri, através de cada um dos fios das palhas.

 

          Sua saudação é “Saluba” ou “Saloba” e seus filhos costumam ser indivíduos calmos, gentis e benevolentes, que se afeiçoam facilmente às crianças ou a quem lhes pede auxílio, pois gostam de educar e ensinar coisas novas. Gostam muito do trabalho no lar, especialmente de limpeza. Podem trabalhar muito por toda a vida, embora realizem seus afazeres sempre com certa lentidão, como se todo o tempo do mundo estivesse disponível. São, contudo, pessoas fechadas, tímidas e introvertidas, tendendo a valorizar demasiadamente recordações e fatos passados. Costumam ser teimosos e particularmente ranzinzas, capazes de guardarem rancor por bastante tempo. Quando desequilibrados energeticamente, tendem a apresentar disfunções glandulares generalizadas.

 

          Na Doutrina dos Sete Raios, Nanã rege na transição do raio índigo para o Lilás, ou seja, no encontro da água com a terra que, simbolicamente, representa o solo encharcado e a lama.

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                                                            IEMANJÁ

 

 

      Deriva a palavra Iemanjá da contração dos termos yorubás “Iya”, “Omo” e “eja”, que significam, respectivamente, “mãe”, “filho” e “peixe”, ou seja, “A mãe dos filhos peixes”. Iemanjá é a Orixá que controla todas as energias presentes nas águas dos oceanos, seu local de regência. Como o mar é o destino de todas as energias circulantes no planeta, Iemanjá tem especial comando sobre todo e qualquer tipo de vibração, particularidade que divide com Oxalá.
 

            O mar pode ser considerado o grande reservatório energético de nosso mundo e nele podem ser encontradas todas as qualidades de energias, incluindo as relacionadas a cada Orixá existente. Por este fato há uma lenda africana que, poeticamente, afirma que Iemanjá teria sido a geradora da maioria dos Orixás. De fato, é à Orixá do mar que se recorre quando é necessária a captação de uma dose especial da vibração específica de qualquer Orixá. Paralelamente, recorre-se também a ela quando se deseja realizar um descarrego um pouco mais complexo, pois é esta Orixá, a guardiã das energias da natureza, que tem o poder de entregar ou recolher energias – de qualquer tipo - sempre que necessário.
 

            Por ter ligação energética com todos os tipos de vibração e de Orixás, Iemanjá também detém especial afinidade com todos os seres vivos, sendo, por isso, chamada de “mãe de todas as cabeças”. Há, inclusive, um antigo ditado africano que diz que “Iemanjá é aquela que apara a cabeça dos bebês no momento do nascimento”. Tal afirmativa remete ao conceito de maternidade, particularidade que tal entidade divide com Oxum. Todavia, considera-se que maternidade no sentido de concepção e gestação é característica própria da Orixá dos rios (Oxum), enquanto que à Iemanjá associa-se os conceitos de maternidade relacionada à educação e criação propriamente ditas. Iemanjá é aquela que dá o sentido de família às pessoas que convivem sob o mesmo teto, prezando pela manutenção da harmonia no lar. Rege também as relações de amizade, as reuniões e todos os tipos de comemorações familiares. Por isso os filhos desta Orixá têm maior facilidade em gerar novas amizades que os filhos de Oxum, por exemplo.
 

            Na Doutrina dos Sete Raios, Iemanjá comanda o raio índigo. Nessa regência, há não apenas o Orixá Iemanjá propriamente dito, mas também os Marinheiros (falangeiros desse raio), as sereias e os Tarimãs, entidades que se apresentam como homens com caudas de peixes, semelhantes aos tritões da cultura greco-romana. Integram, ainda essa faixa vibratória os espíritos encantados que se apresentam como cavalos marinhos, botos e demais criaturas aquáticas e que possuem a função de limpeza energética do ambiente.

 

          Os filhos de Iemanjá, como já exposto, são pessoas com grande facilidade de fazer amizades, principalmente quando mais jovens. Além disso, são do tipo que costumam afirmar que se estivessem no lugar de alguém que fora ofendido, teriam tomado atitudes severas, apesar de, realmente, não conseguirem tal feito. Não são ambiciosos e nem obcecados pelo progresso material, embora sejam um pouco egocentristas e autoritários. São mais decididos que os filhos de Oxum e menos decididos que os de Iansã. Não gostam de mentiras ou traição, o que os torna excessivamente desconfiados. Esmeram-se para que sua casa esteja sempre agradável e confortável, mesmo que tenham dificuldades financeiras. Têm, também, capacidade para dirigir o lar com grande eficiência, embora não costumem ser detalhistas quanto a planos futuros, prendendo-se mais às necessidades do dia a dia. Costumam ser vaidosos, não no sentido de ostentação como os filhos de Oxum, mas mais voltados ao bem estar pessoal, depositando grande preocupação na aparência de seus cabelos, um de seus maiores objetos de vaidade. Aliás, quando se encontram com energias descontroladas, são os seus cabelos os pontos mais atingidos, tornando-se fracos e sujeitos a quedas excessivas. Sua vida profissional pode ser estável, contanto que não recaiam na tendência comum aos filhos de Iemanjá, que é a de se suporem melhores do que realmente são.
 

          As guias de Iemanjá, na Umbanda, devem ser confeccionadas com contas de cristal devido a sua relação com a coletividade das energias do planeta. O cristal fraciona a luz, dividindo-as nas sete cores do espectro visível e representa a capacidade que Iemanjá possui de manipular todos os tipos de energias, hora juntando-as, hora dissociando-as em vibrações particulares. Iemanjá possui, ainda, estreita relação com a pérola, o branco e a prata, exatamente como os seus filhos, que normalmente preferem utilizar jóias deste metal ao invés de outras em cobre, bronze ou ouro.

 

                                                                       IANSÃ

 

Muitos admitem que o nome “Iansã” origina-se do termo “Aborimesan”, cujo significado é “com nove cabeças”, ou do termo “Iyá-mesan-orun”, que quer dizer “mãe dos nove orun”, ou, ainda, da expressão “Iyá-omo-mesan”, que significa, em Yorubá, “mãe de nove crianças”. Outros pesquisadores ainda apontam diferentes origens para o mesmo nome, como por exemplo, “Oyamesan”, cujo significado é, literalmente, “nove Oyás”. De qualquer maneira, fica explícita a estreita ligação que esta Orixá possui com o número nove que, além de ser o número designativo de seu Odu, está presente, também, em inúmeras lendas sobre Iansã, conhecida, ainda, por “Oyá”, antigo nome do rio Niger, cujo delta se divide em nove braços e às margens do qual era cultuada originalmente.
 

            Sua regência se estende sobre o ar, o vento (ar em movimento), o fogo, a tempestade, raios, ciclones, furacões, tufões e vendavais. Também tem comando sobre a água da chuva, mas não em seu início, quando ocorre a condensação (domínio de Oxumarê) e nem em seu final, quando toca e penetra o solo (domínio de Nanã), mas somente enquanto cai, estando envolta pelo seu elemento principal, o ar. Além de Omolu / Obaluaiê, Oyá-Iansã é o único Orixá que também detém domínio sobre eguns, podendo afastá-los ou espantá-los segundo sua vontade, personificada miticamente na utilização de seu “Iruexin”, espécie de chicote confeccionado com a crina do rabo de um cavalo presa a um pedaço de osso, madeira ou cobre. Em alguns casos, na impossibilidade do uso da crina, aceita-se a utilização de palha da costa em seu lugar.
 

Como os demais Orixás, Iansã recebe muitas denominações distintas (no Candomblé), que a classificam em qualidades diferentes do mesmo Orixá. Na Umbanda, contudo, costuma-se, no máximo, subdividir as Iansãs em dois grupos: o das “Iansãs de Balé” e o das “Iansãs Matambas”.
 

As Iansãs de Balé são também conhecidas como “Igbalés”, termo que significa “aquela que retorna a terra” segundo uns e “governanta” segundo outros, e que serve para designar as que têm especial ligação com os eguns ou com o “balé”, a “casa dos mortos”. Trabalham na irradiação de Xapanã e expulsam os eguns enquanto dançam, com o movimento dos seus braços e o agitar constante de seu Iruexin. Em alguns terreiros são também chamadas de “Egun-itás”. 
 

O caráter de Iansã corresponde ao das pessoas que possuem personalidade forte e lutam para atingir os objetivos. Seus filhos herdam, além destas, outras características atribuídas ao Orixá. São pessoas apaixonadas, das que são capazes de dar vazão à paixão de forma louca, violenta, com volúpia e sem receio das conseqüências pois, freqüentemente, agem mais pelo sentimento que pela razão. Podem ser provocantes e ciumentas ao extremo e possuem grande vigor sexual, comparável ao dos filhos de Ogum. Diferentemente dos filhos de Oxum que possuem uma sensualidade meiga, os filhos de Iansã conquistam pela sua sensualidade agressiva, muitas vezes atirada e direta.
 

São indivíduos dominadores, corajosos, ousados, abusados, francos ao extremo, podendo ser inconvenientes, possuindo enorme dificuldade de esconder suas grandes emoções ou sentimentos, sejam de simpatia ou antipatia. Possuem gênio difícil e não conseguem perdoar com facilidade erros que não sejam os seus próprios ou os de alguém de quem goste muito. Quando contrariados, podem ser impulsivos, antiéticos e violentos, capazes de promoverem agressões físicas e morais sem se sentirem constrangidos, pois não temem escândalo quando acham que estão corretos.
 

Sendo mulheres, não gostam dos afazeres domésticos, típica ocupação feminina, preferindo trabalhos que demandem maior complexidade ou mesmo força física, além de possuírem, geralmente, maior número de amizade entre homens do que entre pessoas de seu sexo.
 

Quando se encontram descontrolados energeticamente, os filhos de Iansã costumam ter problemas financeiros ou de justiça, além de, de vez em quando, serem capazes de se sentirem perdidos em lugares que conhecem bem, até mesmo em frente à sua própria casa.
 

Iansã possui estreita relação com Xangô, chefe da linha de Umbanda a que pertence. Por isso, todo filho de Iansã “carrega” um Xangô e vice e versa. No mundo astral, é ela quem comanda os erês, que também pertencem a sua linha. Rege também em pedreiras e bambuzais e é extremamente exigente e inquizilada com seus filhos. Sua cor principal na Umbanda é o coral (na África, suas guias eram confeccionadas com contas corais denominadas “monjoló”, oriundas da lava vulcânica), admitindo-se, também, outras cores como o amarelo, o rosa e o branco (para Iansã do Balé), quando assim pedido pelo próprio Orixá. 

                                                                 OXUM
 

            Oxum é um dos Orixás mais populares no Brasil. Seu nome é originário de um rio que possui a mesma denominação e que passa pela cidade de Oxogbô, na Nigéria, local onde esta entidade da natureza era cultuada originalmente.
 

            Sua regência principal se encontra nas águas dos rios, com as quais mantém uma relação tão poderosa que lhe confere, também, por extensão, o domínio sobre tudo o que está relacionado ao meio aquoso (como a lua que exerce enorme poder sobre as marés) ou o que possui a capacidade de reter líquidos (como a própria bolsa uterina que envolve o feto em formação). 
 

            Por ser a água indispensável a qualquer ser vivo, Oxum detém a primazia de controlar as energias diretamente relacionadas à vida, as quais são transmitidas a cada indivíduo no momento da concepção, para que a fecundação possa ocorrer dentro dos parâmetros desejados e relacionados ao seu karma e missão.
 

As energias da Oxum atuam preponderantemente sobre qualquer pessoa desde o momento da fecundação até o instante em que a criança começa a falar e a expressar suas próprias idéias, passando, evidentemente, pelo período de gestação, tempo em que o bebê permanece imerso diretamente em seu elemento, a água. Após esta fase, continuarão sob a influência de suas energias apenas aqueles que a possuem como um dos primeiros Orixás. Os demais terão, a partir daí, aumentada, sobre si, a atuação do seu próprio Orixá. Todavia, mesmo sendo filho de um outro Orixá qualquer, todo indivíduo continuará a fabricar energias de Oxum até o momento de seu desencarne, pois elas estão diretamente relacionadas à vida e se, em dado momento, deixassem de ser produzidas, certamente ocorreria a doença e a morte (ausência de vida). Além de fabricadas, as energias de Oxum são também absorvidas constantemente no dia a dia humano, seja através da ingestão contínua de água (seu elemento) ou através dos banhos tomados diariamente.
 

 Como acontece com qualquer outro tipo de energia, uma pessoa pode, momentaneamente, estar desequilibrada em relação às energias que Oxum controla, seja por excesso ou por falta das mesmas. Quando há um descontrole deste tipo, podem ocorrer algumas doenças físicas, normalmente ligadas ao aparelho reprodutor, justamente pelo fato desta qualidade de energia ter a propriedade de atuar diretamente sobre a procriação. Um dos casos típicos de enfermidades causadas por esta turbulência energética resulta no surgimento de cistos e complicações em úteros e ovários que podem acabar por dificultar ou impedir a gestação ou, ainda, ocasionar abortos espontâneos, pois é a atuação equilibrada desta Orixá que mantém a criança viva e sadia no ventre da mãe. Algumas vezes ocorre, também em mulheres, o aparecimento de nódulos e tumores nos seios. Contudo, o estágio mais avançado do descontrole energético de Oxum leva a situações de epilepsia, a qual pode ser facilmente tratada com a promoção do equilíbrio energético do indivíduo, seja através do desenvolvimento mediúnico ou de firmezas e obrigações relacionadas à Oxum.
 

Por produzirem, particularmente, energias relacionadas à vida, os filhos de Oxum devem precaver-se de fontes energéticas que possam atacá-las, especialmente as geradoras de energias contrárias, como as relacionadas à morte. Assim, visitas a cemitérios, velórios, enterros, ou qualquer outro lugar onde haja, certamente, a presença de eguns e que, por isso mesmo, possuem excesso de energias relacionadas à morte, devem ser evitadas. A junção destes dois tipos de energia, quando desequilibradas, pode acarretar sérios problemas de saúde, pois, em outras palavras, “vida + morte = doença”. 
 

Como ocorre com a maioria dos demais Orixás, há várias qualidades de Oxum (mais conhecidas no Candomblé), cada uma recebendo uma denominação que revela um atributo que possui, uma passagem de uma lenda ou um título carinhoso. Oxum pode se apresentar como uma figura maternal, uma jovem feiticeira ou uma guerreira intempestiva. Há, ainda, as que se apresentam como velhas e que normalmente regem em locais mais profundos dos rios e aquelas que se apresentam como moças, regentes dos trechos mais superficiais. Locais de águas brandas têm uma Oxum de temperamento suave como regente, ao passo que locais de águas turbulentas são regidos por Oxuns de personalidade guerreira. Na Umbanda, genericamente, utiliza-se apenas o termo “Mamãe Oxum” para identificar grande parte desses tipos de Oxum.
 

            As características comportamentais atribuídas à Oxum e que, na maioria das vezes, estendem-se aos seus filhos, revelam uma personalidade maternal, carinhosa, meiga, afeita às crianças, vaidosa, amante da beleza e de adornos, sendo particularmente inclinada à riqueza e prosperidade material. Na África, inclusive, à Oxum eram ofertados objetos de cobre, metal de maior valor entre os Yorubás. No Brasil o cobre foi substituído pelo ouro, mantendo-se, assim, a ligação de Oxum com a riqueza. Há um tradicional ditado africano que, poeticamente, revela a atração deste Orixá pelas coisas valiosas, e que diz: “Oxum limpa suas jóias de cobre antes de limpar seus filhos”.
 

            O arquétipo dos filhos de Oxum corresponde ao das pessoas graciosas, sensuais, elegantes, de bom gosto e vaidosas, tendendo, inclusive ao narcisismo. Gostam de jóias, vestimentas caras e perfumes. Preferem atingir seus objetivos mais através de seu encanto pessoal, diplomacia, negociação, inteligência e astúcia que do combate direto, exatamente como as águas do rio, que preferem contornar as pedras a tentar penetrá-las, muito embora, com o tempo, acabem por desgastá-las com a erosão. Por isso, muitas vezes, embora dêem a impressão de que não estão interessados em qualquer objetivo em especial, agem por outros caminhos, sorrateiramente. Dão enorme valor à opinião alheia e, por isso, odeiam qualquer tipo de escândalo, que poderia macular a imagem que tentam passar a todo o instante de pessoas educadas, finas e comedidas. Têm tendência a engordar e são um pouco desastradas, quebrando coisas com facilidade.
 

            Os filhos de Oxum apresentam, ainda, tendência à teimosia, manha e maledicência, correspondendo ao tipo capaz de arquitetar maquiavelicamente - nos bastidores - as situações que poderão ser-lhes úteis. Possuem o dom de saber utilizar e manipular as palavras para obter o que desejam, seja através dos comentários, “cochichos”, “intrigas” ou “venenos sutis”, que são sua especialidade, tanto quanto o dengo e o charme pessoal.

    
           Na Umbanda atribui-se à Oxum as cores azul e branco, que representam não apenas as águas, mas também o caráter básico deste Orixá, geralmente brando e pacífico. 
 

                                                                   EWÁ
 

            Ewá é uma Orixá feminina bastante parecida tanto com Iansã quanto com Oxum, o que a faz ser tomada, muitas vezes, por uma manifestação de uma ou de outra. Tal ambivalência resulta-se da mistura de energias que controla na natureza, semelhantes às vibrações de Iansã, Oxum e Oxossi. Assim, ao mesmo tempo em que é guerreira como Iansã, assume características maternais comuns à Orixá dos rios e determinadas como o Orixá das matas.
 

            Seu nome provém da denominação de um rio nigeriano, às margens do qual era cultuada na África, e seus domínios se estendem sobre cacimbas, poços e reservatórios de água doce. Rege, ainda, sobre os astros, o fogo, a neve e as nuvens, principalmente as que se tornam rosadas pelos raios do sol. Por isso, diz-se que “Ewá é a senhora do céu cor-de-rosa”.
 

            Ewá é a dona do encanto, dominando tudo o que causa sensações agradáveis nas pessoas, como as artes, a música e as coisas alegres e vivas. Nuvens que lembram objetos e animais são obra da força atuante desta Orixá. Aliás, seu domínio sobre as nuvens e, conseqüentemente, sobre o ciclo de evaporação e condensação da água, é compartilhado com Oxumarê, com quem tem grande afinidade. Há quem diga, inclusive, que Ewá e Oxumarê seriam os dois lados de uma mesma moeda, uma vez que ambos possuem particular poder sobre ciclos naturais, mutações e transformações orgânicas e inorgânicas. Outra característica em comum com este Orixá é a sua atuação sobre as cores. Enquanto Oxumarê conduz as cores e as energias através do arco-íris, Ewá é quem fixa as tonalidades nos elementos da natureza, dando a coloração a todos os seres vivos e demais objetos nela existentes, tornando-a alegre, bonita e viva. Além disso, enquanto Oxumarê é a cobra macho, Ewá caracteriza-se como a cobra fêmea, representando a interligação profunda entre essas duas entidades. Da união das cobras macho e fêmea dá-se o equilíbrio universal ou, segundo palavras africanas, “a sustentação do Ayê”. 
 

            Ewá apresenta-se, normalmente, trajando vestido cor-de-rosa e portando uma espada e um arpão, o que lembra o aspecto caçador de Oxóssi, uma das energias que coordena. Suas cores são o vermelho, amarelo e azul, admitindo-se, também o rosa como coloração especial.
 

            Os filhos de Ewá são pessoas com grande magnetismo pessoal, normalmente bonitas e que gostam de elogios. São agitados e com tendência à mutabilidade de comportamento. Contudo, não perdem a sinceridade e as características de amizade, lealdade e honestidade. Embora possam possuir muitos amigos, tendem ao isolamento e à meditação. Gostam de namorar e sentem-se bem quando são agradadas, embora não tenham o casamento como meta de vida. Não obedecem com facilidade e têm tendência a falar mais que o necessário. Além dessas características, podem alternar características típicas de filhos de Iansã, Oxum e Oxossi, o que faz com que, freqüentemente, sejam confundidos com filhos destes Orixás.

                                                                OBÁ
 

            A palavra “Obá” significa, em Yorubá, “Rainha”, e é aplicada a esta Orixá não apenas em referência a uma lenda que atesta seu relacionamento com Xangô, o Rei, como também devido a sua ligação com o rio nigeriano de mesmo nome, do qual é o Orixá regente. É uma entidade bastante semelhante à Iansã, mas que pode ser enquadrada na categoria dos Orixás mistos, ou seja, aqueles que controlam simultaneamente duas – ou mais – energias diferentes. Nesse caso, especificamente, as energias também controladas por Ogum e por Iansã.
 

            Na natureza, Obá estende sua regência sobre os mesmos elementos relacionados a Iansã e a Ogum, ou seja, sobre as tempestades, os raios, os ventos e também sobre os metais e o fogo. Todavia, tem especial domínio sobre as formações insulares (as ilhas), o que, de certo modo, reflete um pouco da personalidade de seus filhos, pessoas com tendência à deficiência de comunicação e, conseqüentemente, propensas a serem mal compreendidas, tendendo, portanto, ao isolamento, como se vivessem permanentemente numa “ilha psicológica”.
 

Os filhos de Obá caracterizam o tipo valoroso, lutador e bem intencionado, mas que poucas vezes é reconhecido ou bem entendido. Normalmente seus erros vêm precedidos das melhores intenções. Sua maior falha, como já dito, é a comunicação, pois tendem a não falar o que deveria no momento certo.
 

            Paixão para os filhos de Obá é sinônimo de sofrimento, pois não conhecem a paixão com limites e, por amor, são capazes de romper os maiores obstáculos. O maior problema é, entretanto, desejarem reciprocidade total por parte do cônjuge, pois não entendem outra forma de amor. Por isso, sofrem e acham-se pouco queridos, tornando-se, dessa forma, um tanto quanto desconfiados das atitudes do parceiro. Contudo, não têm coragem de expor suas emoções e conflitos sentimentais, interiorizando-os cada vez mais e aumentando, assim, sua própria angústia.
 

            Apresentam, ainda, um temperamento bastante forte e decidido, tendendo ao ciúme e possessão, sentindo-se, muitas vezes, imersos em uma severa disputa com um rival imaginário. Sua frustração sentimental normalmente costuma ser bem compensada pela tendência ao sucesso profissional e social. São corajosos e sinceros, podendo, inclusive, ser rudes em excesso.
 

            Quando descontrolados energeticamente, podem apresentar sintomas assemelhados aos dos filhos de Iansã ou de Ogum, como a tendência à explosão nervosa e agressividade ou melancolia, angústia e depressão.
 

            Tamanha tensão emocional, típica dos filhos de Obá, é explicada, segundo uns, devido ao fato de tal Orixá estender seus domínios sobre energias ligadas a sentimentos de perda, desesperança, desilusão, tristeza, solidão, abandono, raiva e frustração, de modo semelhante àquele pelo qual Oxum rege sobre o amor e Oxalá sobre a tranqüilidade.



            Sua saudação é “Obá Xirêe” e, na Umbanda, suas guias devem ser confeccionadas com a combinação das cores de Ogum (vermelho) e de Iansã (geralmente o coral, mas podendo ser utilizado, também, o rosa ou o amarelo).
 

                                                            OXUMARÊ
 

            Literalmente, a palavra “Oxumarê” quer dizer “aquele que se desloca com a chuva e retém o fogo nos seus punhos”, e é aplicada a este Orixá em alusão a sua ligação com o arco-íris (que se desloca com a chuva) e com as energias cósmicas, sobre as quais detém o domínio (o fogo nos punhos).

 

            Oxumarê é um Orixá de energia mista que compreende dentro de suas possibilidades de manipulação energética energias semelhantes às que Oxum e Iemanjá controlam, conforme explicaremos adiante, podendo qualquer definição um pouco mais rígida a seu respeito correr o risco de estar completamente destituída de fundamento, justamente por ser o Orixá que representa o movimento, a transformação, a renovação e a inconstância por excelência. Em outras palavras, o que se pode afirmar com extrema certeza acerca deste Orixá é que representa a constante inconstância que há em todos os ciclos da natureza que não podem ser interrompidos.

 

           Assim, Oxumarê rege sobre as mudanças de estações, de marés, de fase da lua, de estado físico da matéria (evaporação, condensação e solidificação) e sobre todas as outras mudanças que obedecem a ciclos pré-definidos, incluindo desde o contínuo movimento das ondas do mar à própria rotação da Terra e de todos os planetas ao redor do Sol, bem como a constante movimentação dos demais astros em todo o Universo. Por este motivo, diz-se que, se fosse de sua vontade, toda a movimentação cósmica cessaria e, conseqüentemente, o Universo deixaria de existir. Sua regência também se estende às forças bi-polarizadas ou antagônicas, como o bem e o mal, o doce e o salgado, o masculino e o feminino, o dia e a noite, o seco e o molhado, etc. Por isso diz-se que dualidade é o conceito básico de Oxumarê. Dessa forma, querer estabelecer um comportamento rígido ou mesmo um determinado gênero sexual para este Orixá não é tarefa das mais fáceis.

 

            Para que possa exercer o controle sobre os elementos supracitados, Oxumarê detém o poder de comandar as energias cósmicas, em oposição a Omolu / Obaluaiê, que comanda as telúricas. 

 

          Oxumarê é um Orixá que pode ser representado tanto pelo arco-íris quanto pela cobra. Sua forte ligação com o arco-íris deriva-se do fato de que, além de unir ambientes distintos (terra e céu), o mesmo ocorre, normalmente, durante uma mudança climática, unindo, também, simbolicamente, situações antagônicas (clima úmido ao clima seco), sendo, portanto, a aplicação básica do conceito de dualidade típico deste Orixá. Por outro lado, sua representação como serpente indica a sua ligação com os movimentos cíclicos da natureza, pois as cobras trocam de pele periodicamente, definindo, assim, o término de um ciclo e o início de seu sucessor.

 

          Ser representado pela cobra e pelo arco-íris, por si só, já demonstra o caráter ambíguo deste Orixá. A serpente rasteja sobre a terra, esconde-se e, freqüentemente, é entendida como algo ruim, peçonhento, carregado de sentimentos negativos, enquanto que o arco-íris estende-se para o alto, alcança o céu, é belo e majestoso sendo, normalmente, entendido como algo extremamente positivo. Biblicamente, inclusive, a serpente, freqüentemente, simboliza o mal e as paixões, enquanto que o arco-íris, a aliança do próprio Deus com o Homem. Tudo sintetizado, simultaneamente dentro de um mesmo Orixá!

 

          Sua ligação com a cobra e o arco-íris, no entanto, não é meramente representativa. Oxumarê exerce, de fato, controle sobre suas energias íntimas, bem como sobre todos os demais objetos de forma alongada encontrados na natureza, como o cordão umbilical, o pênis e a banana. Além disso, por atuar, também, sobre tudo o que se movimenta incessantemente, sua regência é estendida, até mesmo, sobre a moeda circulante. Por isso, diz-se que exerce especial poder em círculos financeiros e negociações, como pagamento de contas, lucros, despesas e recebimento de prêmios, bem como nos locais onde tais transações ocorrem, como bancos, instituições financeiras e onde quer que haja abundância material.  

 

         Sendo um Orixá de energias mistas, Oxumarê alterna a sua regência básica periodicamente, o que significa que a cada seis meses todas as suas características sofrem alterações. Em um desses períodos – não necessariamente o primeiro do ano – apresenta-se como mulher, recebe a denominação de “Frekuén”, é representada pela cobra e rege sobre a terra e sobre os rios, sofrendo influência direta das energias de Oxum. No período subseqüente, quando assume a forma masculina, passa a ser representado pelo arco-íris, recebe a denominação de “Bessém” e inicia sua regência no espaço e no mar, sob a influência das energias de Iemanjá.

 

          Diversas são as formas sob as quais seu nome é apresentado, dentre as quais Oxumarê, Oxumaré e Oxum-Maré são as mais comuns. Em vários terreiros de Umbanda é freqüente a utilização desta última pois, muitas vezes, Oxumarê, em sua forma feminina, é considerado uma qualidade a mais de Oxum, devido a sua forte ligação com as energias desta Orixá. Outras denominações, como Angoro e Dan ainda são aplicadas a Oxumarê, dependendo da nação e do estilo de culto em que estiver sendo tratado.

 

          Os filhos deste Orixá possuem algumas características semelhantes às suas. Normalmente têm grande tendência à inconstância, tanto de temperamento quanto de atitudes e aparência. Mudam freqüentemente o penteado, o estilo de roupas, a cor do cabelo (mulheres) e, se possível, até mesmo o emprego, o círculo de amizades, a residência, etc. São pessoas que sentem enorme necessidade de mudanças, como se sua vida fosse uma eterna sucessão de ciclos.

 

          Outras características que apresentam são a paciência, perseverança, tendência à clarividência, curiosidade, ironia, inteligência, generosidade e desprendimento, embora sejam um tanto ambiciosos e possam apresentar traços de orgulho em sua personalidade.

Na Umbanda, as guias de Oxumarê podem ser feitas com todas as cores do arco-íris ou apenas com a alternância das cores verde e vermelho. Em alguns terreiros utiliza-se, como herança do Candomblé, o verde e amarelo ou, ainda, o azul e vermelho. Quando incorpora, pode apresentar-se dançando e gesticulando, como se girasse, constantemente, uma roda invisível com uma das mãos, simbolizando o contínuo movimento do qual é regente. Algumas vezes dança de modo semelhante à Oxum, em pé ou sobre os joelhos. Pode, ainda, estender-se no chão, reproduzindo movimentos típicos do rastejar das serpentes ou permanecer de pé, apontando alternadamente para a terra e para o céu, como se pudesse uni-los com sua dança. Por ser o Orixá que representa a constante alternância de ciclos, Oxumarê pode, ainda, em uma mesma dança, alternar todos os movimentos acima descritos, transformando sua incorporação em momentos realmente únicos e belos.

 

                                                              OGUM
 

            Na natureza Ogum é o Orixá que tem a função de controlar as energias ligadas aos metais. Por isso, como extensão, é considerado o padroeiro de todos os que utilizam objetos metálicos com certa constância, como os ferreiros, cirurgiões, agricultores, marceneiros, mecânicos, etc. Possui, ainda, íntima ligação com o fogo, o elemento utilizado para que seja possível a fundição e a modelagem de objetos metálicos. 
 

           Seu domínio sobre o fogo é compartilhado com Exu, com quem, aliás, possui um relacionamento excelente. Por isso, na Umbanda, enquanto é atribuída aos Exus a função de guardiões do terreiro e dos médiuns, a Ogum é facultada a ocupação de comandá-los durante seu trabalho ou durante as demandas espirituais, sendo tal função a sua principal missão junto às casas umbandistas. Este fator garante-lhe apelidos como “General de Umbanda”, “Capitão” e outros que demonstram claramente sua personalidade bélica. A palavra “Ogum”, inclusive, significa em Yorubá, literalmente, “Senhor da Guerra”, e reflete bem o caráter e a personalidade típica atribuída a este Orixá e aos seus filhos. 
 

          Seu caráter batalhador, todavia, não fica restrito aos círculos do terreiro; estende-se também, a diversos segmentos da vida humana, conferindo coragem, determinação e empenho às pessoas interessadas em realizar algum empreendimento. Por isso também é considerado regente dos caminhos e estradas, uma vez que ajuda as pessoas a atravessar qualquer obstáculo, atingindo, por fim, seu objetivo.
 

          Ogum tem uma personalidade obstinada, disciplinada e rígida, correspondendo ao mais perfeito arquétipo do militar terreno. Sabe comandar e ser comandado, característica nem sempre seguida por seus filhos que, devido ao gênio forte, muitas vezes tendem para a indisciplina e inconstância. Ogum corresponde, ainda, à figura mítica do guerreiro, aquele que age e luta impulsionado mais pelas paixões – que lhe conferem determinação e força – que pela razão. É o lutador destemido, capaz de encarar qualquer inimigo a fim de fazer prevalecer o seu ideal. É aquele que prefere o combate de frente às articulações políticas dos bastidores. Corresponde, ainda, ao guerreiro que, entorpecido pelo fervor da batalha, é capaz de levá-la às últimas conseqüências, sagrar-se vencedor e, depois, com a mesma paixão que o movera momentos atrás, sentir-se amargurado pela violência cometida. Há, inclusive, um antigo ditado africano que bem reflete tal instabilidade emocional e de caráter e que diz: “Ogum é o homem louco com músculos de aço!”.  
 

         Os filhos deste Orixá herdam ainda outras peculiaridades: Gostam de resolver os seus próprios problemas sem recorrer a qualquer ajuda exterior, pois possuem um senso de honra – tendendo ao orgulho - insuperável. São capazes de enfrentar qualquer obstáculo a fim de fazer prevalecer a sua opinião e costumam agir mais pela paixão que pela razão, o que faz com que, muitas vezes, não planejem suas atitudes e acabem por arrepender-se de erros praticados.
 

          São pessoas com enorme senso de vontade, o que lhes confere determinação incomum para conquistarem seus objetivos. Dão muito valor às amizades e, por elas, são capazes de enfrentar qualquer obstáculo, até mesmo a própria família. Sexualmente, são pessoas com grande disposição e bastante inovadoras, tendendo, inclusive, à infidelidade, pois normalmente encaram o sexo como uma necessidade básica da vida humana, como comer, beber e competir e, também, como um momento de prazer em meio às batalhas da vida. Em contrapartida, não suportam a rejeição ou a traição do cônjuge.
 

          Gostam de viajar e de conhecer novas pessoas, pois são bastante inovadores. O desconhecido os atrai e, por isso, freqüentemente, iniciam novos empreendimentos – profissionais e sentimentais - sem, contudo, apegarem-se, profundamente, a nenhum deles, pois o assunto só os interessa enquanto for novo, o que não quer dizer que não possam estabelecer vínculos estáveis, mas apenas que, tais relações, para serem duradouras, deverão ser permeadas de novidades e inovações que lhes dêem motivação e não os façam sentir-se presos.
 

          Outras características que possuem são resumidas em tendência à irritabilidade, praticidade, violência, vingança, persistência e liderança nata. Possuem, ainda, enorme energia nervosa, que precisa ser dissipada através da constância de atividades físicas.
 

          Estando com as energias descontroladas, os filhos de Ogum tendem a apresentar sérios problemas psíquicos e nervosos. Tendências à depressão, suicídio, loucura, apatia ou euforia repentina são típicas desta fase. Algumas vezes o surto é tão grande que pode levar à desmemorização e a crises de fobias generalizadas. Nesta instância, a presença e força de vontade da família devem ser o principal ponto de apôio para a recuperação energética e espiritual do indivíduo, pois é ela, a família, quem deverá convencê-lo de que necessita de ajuda e encaminhá-lo ao amparo necessário.
 

          Ogum pertence à quinta linha de Umbanda. Sua cor é o vermelho, que representa a força de vontade e o clamor das batalhas e pode empunhar, durante alguns rituais umbandistas, uma espada de aço ou uma bandeira representativa dos ideais cristãos da Era Medieval, em alusão aos antigos Cavaleiros Templários, de quem emprestam, muitas vezes, a própria aparência.
 

           Na Umbanda, entende-se que a linha a qual este Orixá pertence é comandada por um Ogum na irradiação de Oxalá, o qual pode ser chamado apenas de “Ogum”. Dentro desta linha há uma larga variedade de Oguns, cada qual trabalhando na irradiação de determinado Orixá. Assim, há os que trabalham com Iemanjá (como Ogum Beira-mar), os que trabalham com Oxum (Ogum Iara), os que trabalham com Iansã (Ogum Matinada), e assim por diante.

          Na Umbanda pode aparecer, ainda, Ogum Xoroquê, não como um simples Ogum na irradiação de Exu, como muitos acreditam, mas como uma mistura energética entre estes dois Orixás, não podendo, portanto, ser considerado, a bem de direito, nem um Ogum e nem um Exu, mas um hibridismo de ambos.
 

          Ogum é uma das figuras mais conhecidas dentro do panteão dos Orixás, especialmente no Brasil, onde, segundo relatos, teve atuação claramente sobrenatural durante a Guerra do Paraguai. Conta-se que em 1867 os terreiros umbandistas foram os primeiros a ter notícias da vitória brasileira em uma de suas batalhas (Batalha do Humaitá), quando, após o seu término, falangeiros de Ogum baixaram e transmitiram a notícia aos terreiros em forma de ponto, da seguinte forma:
 

“Nos campos do Humaitá

Venceu-se a guerra, meu Pai

Ogum, com seu cavalo de cor

Ogum Megê, Ogum Iara

Venceu-se a guerra, meu Pai

Ogum, com seu cavalo de cor.”



           A partir daí, e até hoje, foram criados inúmeros pontos de Ogum que relembravam em detalhes tal batalha e uma possível atuação do Orixá no clamor da guerra.

 

                                                            OXÓSSI

 

A palavra "Oxóssi" é derivada da combinação dos termos yorubás "oxo" (caçador) e "ossi" (noturno), embora, algumas vezes também seja conhecido apenas por "Ode", que possui significação semelhante.

 

Oxóssi tem como principal função na natureza o zelo pela vida animal, comandando diretamente os elementais encarregados da proteção da fauna do planeta. Todavia, além do zelo pela fauna, compartilha com Ossâin o controle de parte da vegetação, não no sentido amplo compreendido pelo Orixá das folhas, mas apenas sobre os vegetais entendidos como necessários à alimentação, o que é extremamente natural, dado sua missão de cuidar do provimento das necessidades vitais dos animais. Não obstante tal fator, os elementos de regência de Ossâin e Oxóssi freqüentemente se misturam, pois é nas florestas e matas fechadas que se encontra o habitat de grande parte da fauna mundial. 
 

A ligação de Oxóssi com os vegetais comestíveis garante-lhe não apenas domínio sobre colheitas esporádicas, mas também, sobre a lavoura e a agricultura planejada, sendo, por isso, também, considerado o Orixá da fartura, da abundância e da prosperidade, pois havendo animais para serem caçados e alimentação abundante, há condições de sobrevivência humana no planeta.
 

O temperamento dos filhos de Oxóssi reflete as características principais do arquétipo do caçador, como a concentração, astúcia, paciência, determinação, gosto pela liberdade e tendência ao isolamento. Possuem, também, atração por coisas novas, certa volubilidade afetiva, alegria, jovialidade, desconfiança, vaidade e grande senso de responsabilidade, que os impele à conquista e ao provimento das necessidades do lar.
 

Apesar de terem, também, ímpeto lutador, os filhos de Oxóssi não costumam agir de forma semelhante aos de Ogum, pois, geralmente, tendem a colocar a razão à frente de suas atitudes, uma vez que não possuem a explosão passional que move os filhos do Orixá guerreiro. Tal diferença constitui a maior distinção entre o arquétipo do guerreiro (Ogum) e o do caçador (Oxóssi). Enquanto o primeiro dispõe-se a enfrentar qualquer desafio e a lutar para fazer prevalecer seus ideais, muitas vezes sem pensar nas conseqüências, o segundo, apesar de não fugir da luta - se necessária -, espreita e espera a melhor chance para atacar a sua presa, canalizando toda a sua fúria para aquele momento em que tem absoluta certeza de que sua investida não falhará.   
 

Quando descontrolados energeticamente, os filhos de Oxóssi têm propensões a sofrer acidentes, como se, de caçadores passassem à caça, ficando suscetíveis ao abate inesperado.
 

Os antigos africanos costumavam dizer que Oxóssi é o caçador que nunca erra o alvo e que não precisa de mais de uma flecha para abater a caça. Como esta, inúmeras outras lendas são contadas a seu respeito.
 

            Na umbanda, Oxóssi é representado por falangeiros que assumem a aparência de nativos nacionais, os caboclos. A cor de sua guia é verde, mas pode, se necessário, ser intercalada com sementes e objetos encontrados na natureza. Existem inúmeros caboclos, dentre os quais, destacam-se o Caboclo das Sete Encruzilhadas (fundador da Umbanda no Brasil), Caboclo Ubirajara, Caboclo Sete Flechas, Caboclo Pena Branca, Caboclo Flecheiro, Caboclo Vira Mundo, Tupinambá, Tupi, etc.
 

           Os caboclos que representam Oxossi e que lhes servem como mensageiros são, muitas vezes, confundidos com os eguns de índios desencarnados em solo nacional. Tal sentença não corresponde à verdade, embora muitas pessoas experientes e, até mesmo, alguns caboclos afirmem o contrário. Como qualquer espírito que integra as falanges do Astral Superior dedicadas à natureza, os caboclos são entidades despidas de qualquer ligação com encarnações pretéritas. Assumem, sim, uma forma, uma aparência e a representação de um papel que os tornem facilmente assimiláveis pela cultura regional e pelo inconsciente popular. A maneira segundo a qual se manifestam serve-lhes como ferramenta auxiliadora na transmissão dos ensinamentos e na consolidação da confiança dos encarnados. 
 

          Quando algum caboclo fala de sua encarnação como índio, refere-se, na verdade, a exemplos através dos quais pode transmitir alguma mensagem de força, humildade ou sabedoria pois, em sua última passagem sobre a Terra, estes que nos terreiros de Umbanda se apresentam como figuras indígenas, podem ter tido, na verdade, a forma de qualquer ser humano: um homem comum, um padre, um japonês, uma criança alemã ou, até mesmo, casualmente, um índio. A mesma teoria aplica-se, ainda, às caboclas, pretos-velhos, crianças e todos os demais espíritos que ocupam funções no panteão das forças da natureza, seja atuando como falangeiros diretos ou indiretos dos Orixás.
 

          No terreiro umbandista, freqüentemente, são os caboclos que resolvem situações embaraçosas e que demandam vigor de opinião. São eles que decidem, opinam e iniciam os tratamentos sobre os casos mais difíceis, uma vez que personificam os verdadeiros conhecedores dos fundamentos das plantas e dos métodos curativos naturais. São eles, também, que transmitem aos filhos da casa as noções básicas de postura espiritual e conduta moral que devem construir para si. Por isso, à frente dos trabalhos desenvolvidos em uma instituição de Umbanda, há sempre um caboclo que serve de diretor, conselheiro, porta-voz dos Orixás comandantes e confidente dos médiuns carentes de afeto e instrução.

                                                             OSSÂIN
 

            Seu nome significa em yorubá “Luz Divina”, mas também é conhecido por variações como Ossanin, Ossonhe, Ossãe e Ossanha.
 

            Sua regência na natureza se estende sobre todo o reino vegetal, não apenas sobre as plantas alimentícias como Oxóssi e nem sobre uma planta específica, como cada um dos demais Orixás. Por isso diz-se que Ossâin é o profundo conhecedor de todas as propriedades místicas e terapêuticas de cada espécie de vegetal. Dessa forma, embora cada Orixá possua ligação com uma folha ou planta, somente Ossâin sabe dela extrair toda a sua potencialidade energética.
 

            Sua ligação com a vegetação é tão intrínseca que chega a se misturar às mesmas e aos elementais que com elas trabalham diretamente. Devido a este fator, narram as lendas africanas que, freqüentemente, é visto acompanhado de “Aroni”, um anão de uma só perna que fuma um cachimbo feito de casca de caracol, extremamente parecido com o Saci Pererê, elemental descrito pelos índios brasileiros.
 

            Ossâin é um Orixá misterioso, tanto quanto o poder do elemento que governa. Por isso, a maior parte do conhecimento a seu respeito é cercada de cuidados e superstições que acabam por torná-lo ainda mais oculto. Dentro do próprio Candomblé há descrições distintas para a personalidade deste Orixá. Até mesmo o sexo com que se apresenta é discutível. Na Umbanda, contudo, embora não se apresente, normalmente, com este nome, o contato com Ossâin é muito maior e menos cercado de restrições. Enquanto Oxóssi se manifesta através dos falangeiros Caboclos, Ossâin apresenta-se sob a forma das Caboclas, deixando, mais uma vez, extremamente clara a forte ligação existente entre estes dois Orixás. Deve-se, ainda, lembrar que, para os espíritos não importa a aparência que tenham que assumir para melhor desempenharem o seu trabalho. Apresentar-se na Umbanda como índia e no Candomblé como um feiticeiro das florestas não faz, para s falangeiros de Ossâin, enfim, a menor diferença.
 

            Os filhos de Ossâin – ou de Cabocla – tendem a ser pessoas reservadas e discretas. Não gostam de falar de si e muito menos de seu passado. Se não são totalmente introvertidas, pelo menos não gostam de se expor e de se fazer notar. São pacientes e racionais. Gostam de trabalhos manuais e têm grande habilidade para os mesmos. São detalhistas, caprichosos e com grande atração pela religiosidade. Sua necessidade de isolamento faz com que muitas vezes sejam mal interpretados, mas são incapazes de recusar ajuda a qualquer pessoa que deles se aproxime.
 

            As caboclas pertencem à mesma Linha de Umbanda dos caboclos, chefiada diretamente por Oxóssi. Assim, suas características místicas são bem parecidas, incluindo a cor de sua guia - verde. Em alguns casos, admite-se, na guia, a introdução de contas de outra cor intercaladas às verdes, justamente para diferenciá-la da destinada ao caboclo.
 

            Não há qualidades diversificadas deste Orixá no Candomblé. Na Umbanda, entretanto, há um sem-número de caboclas diferentes, como Cabocla Jurema, Jandira, Iracema, Iara, Jupira, Janaína, Jandaia, Araci, Moema, Mariana, Jussara, etc.

 

                                                               XANGÔ

 

          Aquele que se destaca pela força e revela seus segredos” é a melhor tradução para o termo “Xangô”, designativo do Orixá que tem, na natureza, a sua regência sobre os minerais e, por extensão, sobre montanhas, pedreiras e formações rochosas de modo geral.
 

            Por ser o Orixá que controla as energias ligadas às rochas, Xangô também detém poder sobre a maioria dos meteoros que chegam ao planeta. Compartilha, ainda, com Iansã, certo poder sobre os relâmpagos; não sobre a descarga elétrica propriamente dita, vulgarmente chamada de raio e pertencente ao domínio de Oyá, mas sobre o deslocamento das partículas do ar ionizado que forma o estrondoso barulho denominado trovão.
 

            Xangô é considerado, também, o Orixá da Justiça, detendo especial domínio sobre questões que envolvam disputas de interesses, sejam as formalmente articuladas através de meios jurídicos, ou as simples questões cotidianas de qualquer ser encarnado. Devido a este fator, pessoas que possuem problemas de tal relação, costumam invocá-lo, requerendo o seu auxílio para que o desfecho da situação lhe seja favorável. Todavia, por ser justiceiro, Xangô não concede a vitória nem mesmo aos seus filhos, caso estes não estejam plenamente corretos. Ao contrário, todas as pessoas que lhe pedem auxílio em questões jurídicas - incluindo seus filhos -, estando errados, verão sua condenação ser acelerada e a justiça ser feita com a vitória de seu oponente. Por isso, antes de se pedir a ajuda deste Orixá, deve-se ter plena consciência da extensão da própria culpa.
 

            Tal caráter extremamente imparcial faz com que Xangô seja encarado, muitas vezes, como um Orixá violento, punidor dos erros humanos e de personalidade severa. Por esta razão, em lendas africanas é considerado “o Rei” - ou “Obá”, em yorubá - e possui como símbolo um machado de duas lâminas denominado “Oxé”, simbolizando a propriedade de cortar de ambos os lados, ou seja, de punir independentemente de qualquer ligação pessoal, numa analogia semelhante à da balança utilizada como representação de justiça nas sociedades modernas e a do martelo duplo do deus nórdico Thor, com quem, aliás, possui extrema identidade arquetípica, sendo ambos (Thor e Xangô), entidades ligadas ao trovão e à justiça.
 

            Seus filhos possuem características que bem os definem, como pessoas com grande tendência à rigidez de personalidade, resmungos e ranzinices, capazes de “remoer” por muito tempo uma ofensa sofrida, até o momento em que julgar o ofensor merecedor do seu perdão.
 

            São, ainda, pessoas que dão a impressão de serem um pouco lentas e meticulosas. Às vezes, bastante introvertidas mas, sempre, com grande habilidade para a política e o comando disciplinador, pois gostam de dar a última palavra em qualquer querela e de se sentirem respeitados.
 

            Costumam ser trabalhadores e assumir para si questões alheias, como se fossem eles os ofendidos ou injustiçados. São, normalmente desconfiados e costumam, naturalmente, impor respeito nos ambientes que freqüentam. Fisicamente, têm tendência à calvície (no caso dos homens) e a um físico compacto, parecendo atarracado ou, pelo menos, mais rígido que o normal.
 

            Quando estão com as energias descontroladas, os filhos de Xangô ficam suscetíveis a sofrer injustiças nos mais variados graus, desde aquela acarretada pelo não entendimento de algo por eles dito, até a injustiça de ser condenado por um ato que não cometeu. Caso tenham processos em meios jurídicos nesta fase de descontrole energético, fatalmente não lograrão êxito ou, pelo menos, verão sua ação ser arrastada por anos até que tenha alguma decisão.
 

            As energias de Xangô não combinam com energias de eguns, excetuando-se o Xangô conhecido como “das Almas” que, por si só, trabalha constantemente assessorado por espíritos desencarnados. Assim, sempre que um filho de Xangô está com eguns encostados, Xangô se afasta para que suas próprias energias não sejam atingidas pela influência vibracional do desencarnado. Há pessoas que afirmam que Xangô seria, mesmo, uma espécie de ímã de eguns, daí a sua aversão energética a eles.
 

            Pelo exposto, conclui-se, facilmente que Xangô é o primeiro Orixá a se afastar de qualquer ser encarnado quando o mesmo já está próximo à morte e começa a receber visitas de espíritos amigos de além-túmulo. A partir deste momento seu auxílio seria ineficaz. “A Justiça está feita!”, se não a sua, a do Pai, que julgou ser este o melhor momento para o desenlace, não restando nada a ser feito. Há quem diga que, nos casos de filhos de Xangô, o mesmo os entrega a Omolu ou Obaluaiê cerca de sete meses antes da morte, momento em que começa a se afastar.
 

Na Umbanda, onde apresenta-se como velho ou como índio, a cor de suas guias é o marrom e algumas qualidades deste Orixá mantêm a mesma denominação do Candomblé; outras, contudo, recebem nomes em português, como se segue:
 

1) Xangô Caô

2) Xangô Sete Pedreiras ou Sete Montanhas

3) Xangô Alufã

4) Xangô Alafin

5) Xangô Menino

6) Xangô do Oriente

7) Xangô das Almas

8) Xangô Airá

9) Xangô Agodô

10) Xangô Aganju

11) Xangô Djacutá

12) Xangô Agojô

                                                             XAPANÃ
 

            Como as demais entidades de origem Jeje, Xapanã – ou Soponna, ou Sapata ou Sakpatá – é um Orixá extremamente misterioso, reservado, respeitado e, muitas vezes temido em terreiros de Umbanda e Candomblé.
 

            Seu nome – Xapanã – deriva de Sanponná – um título ligado ao Sol, o grande calor, com o qual tem grande relação mítica. Possui, ainda, várias denominações, as quais correspondem, cada uma delas, na verdade, a uma qualidade deste Orixá e que, em conjunto, podem ser resumidas apenas com a referência de “Povo do Cemitério”, uma vez que é lá, no cemitério, o seu local de maior regência.
 

            Xapanã tem como principal função na natureza a decomposição dos organismos sem vida; animais e vegetais, para que a sua matéria constitutiva possa ser desagregada e as moléculas, agora dissociadas, possam vir a formar outros organismos. Por isso sua força maior encontra-se nos cemitérios – Calunga Pequena - e nos mares, último local para onde escoam todas as energias do planeta, sendo, por isso, considerado o Grande Cemitério, ou Calunga Grande.
 

            Por estar intimamente ligado à decomposição, Xapanã, obviamente, também detém poder sobre as energias da morte ou, em outras palavras, sobre a ausência de vida. Assim, em organismos debilitados, enfraquecidos e doentes, há crescente vibração atuante deste Orixá. Seu poder – morte – é sempre inversamente proporcional ao poder de Oxum – vida. As energias de Oxum encontram-se no ápice, em qualquer ser vivente, no momento da concepção, e seguem decrescendo até o momento do desencarne. As de Xapanã, inversamente, praticamente inexistem no momento da concepção, mas aumentam gradativamente até o momento da morte. Enquanto uma diminui, a outra aumenta, de forma que todos os encarnados encontram-se, permanentemente sob o jugo do equilíbrio de tais energias, sejam ou não filhos destes Orixás. Pode-se afirmar que todos, sem exceção, “morrem” um pouco mais a cada dia, ao passo em que perdem a sua vitalidade. Isso explica, também, a aversão de Oxum às energias relacionadas a eguns, e a atração de Xapanã por elas. Enquanto as vibrações de Oxum perdem a força na presença de eguns, o próprio Xapanã trabalha assessorado por mentores desencarnados.
 

            Sob esta análise, pode-se dizer que as energias de Oxum e de Xapanã, mesmo em pessoas que os possuem como principais Orixás, devem estar permanentemente equilibradas. Caso contrário, poderá haver conseqüências sérias sobre sua saúde pois, de tal combinação - vida e morte -, se desorganizada, é gerada a DOENÇA. Por ter direta relação com esse equilíbrio, Xapanã também é considerado o senhor da saúde e da doença e o médico dos pobres, pois a sua aproximação tanto pode provocar a enfermidade como ocasionar a cura.
 

            Devido a todos os seres encarnados possuírem, simultaneamente, as energias da morte e da vida, presentes em seu campo astral, todos têm algum tipo de relação com Xapanã e Oxum, mesmo que não sejam seus filhos. Dessa forma, uma pessoa cujo Orixá esteja enfraquecido e, por isso, impossibilitado de responder momentaneamente em um jogo de búzios, facilmente poderá ser tomada como filha destes Orixás – Oxum e Xapanã -, pois, no jogo, muito provavelmente, serão eles a aparecer.
 

Xapanã apresenta-se como um homem com o corpo coberto de feridas, hora velho, hora moço, dependendo do tipo específico presente. Embora haja várias qualidades deste Orixá, apenas três - Omolu, Obaluaiê e Jagun Agbagbá (também denominado de “Babá”) - são bastante conhecidas, ainda mais nos terreiros de Umbanda, onde até há bem pouco tempo este Orixá não costumava, nem mesmo, ser tratado. Com o tempo, convencionou-se denominar todas as qualidades de Xapanã que se apresentam como velhos de “Omolu” e como moços de “Obaluaiê”.
 

As energias de Xapanã estão presentes em ambulatórios, hospitais e locais onde haja pessoas doentes. Aliás, estas mesmas energias que podem curar, quando desequilibradas, ocasionam em seus filhos enfermidades como problemas estomacais generalizados, coceiras na pele e afecções cutâneas, deficiência circulatória seguida de fraqueza nas pernas, ácido úrico acentuado e má formação no feto.
 

Xapanã, quando incorporado, costuma cobrir-se com uma vestimenta denominada “Azê”, que é confeccionada de “iko”, uma fibra de ráfia extraída do “Igi-Ogoro”, a “palha da costa”. Na Umbanda sua guia deve ser feita com as suas cores, que são o preto e o amarelo. A ele são ofertadas pipocas, também chamadas de “guguru”, “buburu” ou “doburu” ou, ainda, de “Flor de Obaluaiê”. 
 

Seus filhos são pessoas com tendência ao masoquismo e autopunição. São normalmente insatisfeitos, mesmo quando a vida corre tranqüilamente. Possuem certa dose de pessimismo, mas somente em relação a si, pois, com os outros, mostram-se pessoas generosas, capazes de se compadecer a ponto de ceder as próprias roupas. Podem ser extremamente generosos e com grande vocação ao auxílio. São pessoas que costumam perdoar com facilidade as injustiças e os agravos, sem guardar mágoas e rancores mas, como o seu Orixá, também inquizilam-se facilmente ante qualquer ofensa. Quando controlados energeticamente, além de não apresentarem os problemas de saúde típicos do desequilíbrio, conseguem grandes oportunidades na vida, às vezes completamente inesperadas.

IROCO
 

            Iroco é um Orixá de origem Jeje conhecido por muitos outros nomes, como Loko, Maiongá, Kitembo, Katendê ou, simplesmente, Tempo.
 

            Na natureza, sua regência se estende sobre todos os tipos de expressões temporais, sejam as climáticas – chuva, seca, frio, calor, etc - ou as relativas a momentos sucessivos – minutos, horas, anos, milênios.
 

            Uma forma simplificada de melhor entender as características deste Orixá decorre da compreensão de ser ele o próprio tempo. “Sem tempo não se faz nada!”; “O tempo corrige tudo!”; “Algumas vezes o tempo está a nosso favor, outras, contra!”; “O tempo passa muito rápido!”; “O tempo passa para todos!”; “O tempo é o melhor remédio!”. Estas são algumas frases contidas no vocabulário cotidiano e que bem refletem a importância deste Orixá – o Tempo – para a Humanidade, pois tudo e todos estão submetidos constantemente a sua atuação. Seu valor é tão grande que até mesmo os outros Orixás a ele se curvam, seja, simbolicamente, no momento da incorporação, quando se dirigem à porta – ao ar livre – e o saúdam, ou, desincorporados, enquanto seus respectivos elementos de regência sofrem as ações do tempo (climáticas e temporais).
 

            Iroco é simbolizado por uma árvore sólida e de raízes profundas – na áfrica a “teca africana” e no Brasil, normalmente, a “gameleira branca” - , representando o seu caráter estável, reto, firme e, algumas vezes, violento, o que o faz ser confundido, vez por outra, com Xangô. Aliás, Iroco é um Orixá de energias mistas, sendo composta a sua essência da combinação energética das essências de Xangô (por isso o estilo de caráter), Iemanjá (as ondas do mar representam a contagem do tempo), Oxóssi (domínio sobre árvores, como a teca e a gameleira branca) e Iansã (domínio sobre o clima). A relação de Tempo com Iansã e Xangô vai além da afinidade energética, uma vez que, segundo uns, Xangô é quem julga, Iansã é quem executa a sentença e o Tempo é a própria sentença em execução.
 

            Raramente Iroco aparece na Umbanda. Isso se dá não só por ter um número reduzido de filhos em comparação com outros Orixás, como também por não ser facilmente identificado pela maioria dos dirigentes de terreiros umbandistas. Quando incorpora, assume sucessivamente a forma de um homem velho, um jovem e, novamente um velho, demonstrando o seu total controle sobre o tempo.
 

            Sua guia na Umbanda pode ser confeccionada com contas coloridas dispostas seqüencialmente como o arco-íris, que não só indica mudança climática como também possui ampla ligação com Oxumarê, Orixá que comanda os fenômenos cíclicos (seqüenciais) e com quem possui grande afinidade, sendo, mesmo, considerados irmãos segundo lendas africanas.
 

            Os filhos de Iroco, quando descontrolados, costumam sentir intenso frio enquanto as demais pessoas transpiram de calor e vice-versa. Neste estado de descontrole energético, podem, ainda, perder todo o domínio sobre seus horários, como se o tempo conspirasse contra eles. Em contrapartida, uma vez controlados, são capazes de levar qualquer empreendimento até o final, conseguindo disponibilizar seu tempo e suas ações da melhor maneira possível.
 

            Há um ditado africano que diz: “O Tempo dá, o Tempo tira; o Tempo passa e a folha vira!”.
 

 

                                                           LOGUNEDÉ
 

Em Yorubá, a expressão Logun-Edé tem por significado “Príncipe Aclamado” e é utilizada para designar o “mimo” com que este Orixá é tratado pelos demais devido a sua peculiaridade de ser, segundo lendas, o único Orixá que não teria nascido de Nanã ou Iemanjá.
 

Logun-Edé – ou Logunedé – é um Orixá de energias mistas - como Obá, Iroco e Oxumarê -, sendo sua essência energética, contudo, resultante da fusão - ou da síntese - das energias de Oxum e Oxóssi, o que lhe confere características alternantes entre as de ambos. Assim, por seis meses Logunedé rege nas águas dos rios e cachoeiras, como Oxum, apresentando, neste período, características comportamentais semelhantes às desta Orixá e, nos seis meses subseqüentes, atua sobre as matas, passando a agir como Oxóssi.
 

Tal alternância é refletida em seus filhos a nível de dualidade comportamental, variando, preponderantemente entre as características tipicamente masculinas, como a agressividade, disputa, força e razão e as tipicamente femininas, como suavidade, gentileza, intuição e sentimentalismo.
 

Além destas qualidades, seus filhos costumam alternar, periodicamente, gostos, preferências, atitudes, amizades e, até mesmo, o próprio humor. Algumas vezes podem apresentar momentos de alta sociabilidade, como Oxum e, outras, de tendência ao isolamento, como Oxóssi. São, ainda, pessoas vaidosas, altivas, belas e elegantes, tendendo, contudo, à preguiça, intriga e ao desejo excessivo de se sentirem preferidas e bajuladas.
 

Além de sua atuação sobre as águas doces e as florestas, Logunedé tem também especial domínio sobre energias relacionadas às artes, à riqueza, sorte, beleza, jovialidade e ingenuidade juvenil. Sua saudação é simplesmente “Logun!” ou “Ou Oriki!”. Na Umbanda, é um Orixá pouco cultuado, na maioria das vezes, por pura falta de conhecimento de como fazê-lo. Sua guia pode ser confeccionada seguindo a alternância de cores de Oxum e Oxóssi, ou seja, com contas azuis, brancas e verdes. Algumas vezes, aceita-se o dourado, em alusão ao ouro e ao “status” de “mimo dos Orixás”, de que gosta de gozar.
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

A CENTELHA DIVINA, por ser uma Missão Umbandista e por ter como referência a prática da caridade, do amor e do respeito ao próximo, seguindo as sagradas Leis de Umbanda, não exerce cobrança financeira de qualquer tipo, por qualquer atendimento ou trabalho realizado, bem com não realiza o sacrifício de qualquer animal, nem utiliza qualquer coisa de origem animal em seus rituais.