• Tata Luis

PAIXÕES E VÍCIOS


Quando falamos em “Paixões”, imediatamente lembramos dos sentimentos indesejáveis, como irritação, intolerância e outros, contra os quais, muitas vezes, lutamos e nem sempre conseguimos a vitória. Contudo, paixão não é só isso. Qualquer tipo de sentimento que domina a nossa vontade e que nos prende às ilusões do mundo pode ser considerado paixão. Dessa forma, não é só o irado que está sob a influência de uma paixão, mas também aquele que é ansioso – mesmo que por coisas positivas –, aquele que tem excesso de zelo por alguém ou alguma coisa, aquele apegado a algum desejo, etc.

As paixões – seja de que tipo forem – podem ser comparadas a um grande fogo que, embora muitas vezes tentemos apagar, causa-nos prazer e, por fim, vicia. Daí a grande dificuldade em vencê-las. Se não nos satisfizessem, seriam combatidas – e vencidas – sem qualquer dificuldade. Em outras palavras, somos responsáveis pelas paixões que possuímos. O irado sente prazer em se irritar; o preguiçoso sente prazer em não fazer nada, e assim por diante.

O prazer oriundo das paixões, como já salientado, normalmente descamba para o vício em alguma prática a ela ligada. Sendo assim, podemos afirmar que qualquer tipo de vício é filho de alguma paixão. Cigarro, drogas, bebidas, irritação, preguiça, gula... Todos são vícios... E são paixões. Causam algum tipo de prazer do qual a vítima se sente incapaz de se livrar. Causam, enfim, dependência.

Enquanto formos dependentes de qualquer coisa, estaremos subjugados a algum tipo de paixão. Algumas são mais agressivas que outras. Há paixões que causam mal não apenas ao seu dependente, mas também às pessoas que o cercam. Mas, enfim, todo e qualquer tipo de dependência é paixão, e precisa ser combatida se desejamos avançar na grande escalada evolutiva.

Alguns tipos de paixão – até certo ponto – podem ser benéficas para o indivíduo. É o que responderam os espíritos ao questionamento de Kardec:

1 – Como se poderá determinar o limite onde as paixões deixam de ser boas para se tornarem más?

“As paixões são como um corcel, que só tem utilidade quando governado e que se torna perigoso desde que passe a governar. Uma paixão se torna perigosa a partir do momento em que deixais de poder comandá-la e que dá em resultado um prejuízo qualquer para vós mesmos, ou para outrem.”

2 – Poderia sempre o homem, pelos seus esforços, vencer as suas más inclinações?

“Sim, e, freqüentemente, fazendo esforços muito insignificantes. O que lhe falta é a vontade. Ah! Quão poucos dentre vós fazem esforços!”

3 – Pode o homem achar nos espíritos eficaz assistência para triunfar de suas paixões?

“Se o pedir a Deus e ao seu bom gênio, com sinceridade, os bons espíritos lhe virão certamente em auxílio, porquanto é essa a missão deles.”

[O LIVRO DOS ESPÍRITOS]

Algumas paixões podem ser úteis quando, multiplicando as forças naturais do indivíduo, impelem-no à evolução e ao progresso. Todavia, seu excesso, seu exagero, torna-as prejudiciais ao espírito por passarem a comandar os sentimentos humanos. Nesse caso, indevidamente, o Alter-Ego, a “Sombra”, como diria Jung, ou o nosso lado oculto – ou que tentamos ocultar-, sai extremamente fortalecido e, cada vez mais, o seu domínio mostrar-se-á dificultoso.

Toda paixão desmedida é sinal de imperfeição do espírito. Ou melhor, o acúmulo de paixões é inversamente proporcional ao grau de evolução consciencial do ser. O indivíduo sujeito às paixões está, assim, mais próximo à natureza animal que à natureza espiritual. Em contrapartida, quanto mais adiantado o espírito, maior domínio tem sobre suas inclinações materiais e mais próximo está da perfeição.

O homem só permanece inclinado às paixões e aos vícios enquanto neles se comprazer. Para vencê-los basta a sua vontade e determinação. Se não consegue dominá-los é porque sua vontade material ainda suplanta as necessidades espirituais, caracterizando sua imperfeição. Não dando nenhum passo em direção à evolução, permanece o espírito no mesmo estágio de adiantamento e terá que retornar à carne, futuramente, em reencarnações de natureza semelhante à atual, prorrogando o seu sofrimento até que se decida pelo progresso. Diferentemente, os espíritos mais evoluídos lutam constantemente contra suas más tendências e consideram cada progresso uma vitória do espírito sobre a matéria.

Contudo, não é somente o prejuízo à evolução existencial a conseqüência da prática de vícios e do acúmulo de paixões. As próprias energias que compõem as camadas perispirituais também são atingidas, afetando diretamente a tela búdica situada sobre os centros de força (chakras), prejudicando a saúde espiritual, física e mental.

4 – Dentre os vícios, qual o que se pode considerar radical?

“Temo-lo dito muitas vezes: o egoísmo. Daí deriva todo mal. Estudai todos os vícios e vereis que no fundo de todos há egoísmo. Por mais que lhes deis combate, não chegareis a vencê-los, enquanto não atacardes o mal pela raiz, enquanto não lhe houverdes destruído a causa. Tendam, pois, todos os esforços para esse efeito, porquanto aí é que está a verdadeira chaga da sociedade. Quem quiser, desde esta vida, ir aproximando-se da perfeição moral, deve expurgar o seu coração de todo sentimento de egoísmo, visto ser o egoísmo incompatível com a justiça, o amor e a caridade. Ele neutraliza todas as outras qualidades.”

[O LIVRO DOS ESPÍRITOS]

Como todas as paixões, o egoísmo tem origem na imperfeição do espírito humano, mais próximo ainda da matéria que do progresso moral. Enquanto assim permanecer, tal sentimento estará sendo continuamente alimentado pela auto piedade e pelo excesso de preocupação com o próprio bem estar material.

À medida que o homem galgar novos degraus na escada evolutiva, perceberá que o maior bem que pode desejar para si origina-se no bem que puder causar aos outros e procurará aperfeiçoar-se através da prática da caridade, sentimento completamente antagônico ao egoísmo.

Por hora, na sociedade humana, onde grande parte dos espíritos reencarnantes ainda se encontra em considerável atraso espiritual, o melhor exercício contra as paixões ainda constitui a prática da solidariedade e da fraternidade ilimitadas, tantas vezes demonstrada por Cristo e outras grandes personalidades, como Buda, Lao Tsé e Krishna.

Enquanto que a caridade pode ser considerada a mãe de todas as virtudes, o egoísmo, sua negação, pode ser tido como a origem de todas as paixões, dentre as quais, as principais são as descritas a seguir:

Orgulho – É o sentimento gerado pelo excesso de brio e amor próprio demasiado. O orgulhoso é egoísta, pois nunca se acha errado, costuma humilhar os outros e, com isso, demonstra só pensar em si mesmo.

Preguiça – Caracteriza-se, principalmente, pela aversão ao trabalho, morosidade e lentidão. O preguiçoso é egoísta, pois não faz nada para os outros nem para si mesmo, e quer que lhe façam tudo.

Vaidade – É o desejo imoderado de atrair atenção. O vaidoso é egoísta, pois, normalmente, é capaz de sacrificar o pão e a coberta daqueles que dele dependem para poder melhor se apresentar.

Gula – É o apego excessivo a iguarias, gerando grande desejo de comer ou beber. O guloso é egoísta, pois ele, na sua ânsia de comer, freqüentemente ignora as necessidades alheias.

Ira – É a posse do sentimento de cólera e desejo de vingança. O irado é egoísta, pois se julga sempre certo e não repara ao magoar os outros com o seu mau humor.

Luxúria – O luxurioso é egoísta, pois só pensa no prazer da carne, de regra geral da própria carne.

Inveja – O invejoso é egoísta, pois sempre acha que o seu vizinho não merecia ter o que tem, mas sim ele, que é perfeito.

Muitas vezes somos vítimas de paixões sem que nos demos conta. Isso porque vivemos em um mundo de ilusão, no qual temos a impressão do “EU” e da “POSSE”. Por não enxergarmos o Mundo Espiritual, temos a impressão de que a vida é somente essa que estamos vivendo, e que é necessário atender a todas as nossas – e somente às nossas – necessidades. Isso é a ilusão do “EU”. Vemos-nos em primeiro lugar em todas as situações, como se estivéssemos desconectados do TODO, incluindo aí o nosso próximo. Preocupamo-nos demasiadamente conosco e esquecemos que, juntos, compomos um ser infinitamente maior – a Criação. Se nos conscientizássemos de que nossa felicidade depende da felicidade do outro, a ilusão do EU desapareceria, e com ela o egoísmo, pai das demais paixões.

Falamos em “buscar atender às nossas necessidades”. Nesse ponto, a palavra “necessidade” deve ser melhor analisada. Se levarmos em conta que a vida carnal é apenas uma ilusão criada para nos ajudar na escalada evolutiva, veremos que não possuímos tantas necessidades quanto pensamos. Ter uma moradia pode ser considerado importante para abrigar o corpo físico. Ter uma moradia luxuosa já não é necessidade. NÃO ter moradia pode ser uma bênção do ponto de vista espiritual, pois através deste tipo de dificuldade muitas paixões podem ser vencidas alavancando o progresso consciencial do espírito. Enfim, se analisarmos assim, veremos que todos temos o DEVER de lutar e buscar a concretização de objetivos – como o sujeito que deseja ter uma moradia -. Mas, ao atingir os objetivos, devemos verificar qual é o limite de nossa necessidade, para não alimentar ainda mais as paixões e estacionar na escalada evolutiva. E, se não atingirmos o objetivo – como o sujeito que não conseguiu a casa – não devemos nos entristecer com isso, pois tendo a consciência um pouco mais espiritualizada, entenderemos a grande bênção que esta situação pode trazer para nossa caminhada infinita.

Resumindo a explicação acima, diríamos que situações ruins não devem suscitar a paixão do descontentamento, porque tais situações NÃO EXISTEM, na verdade. Tratam-se apenas de ilusões criadas para nos forçar à evolução. Achamos que as situações são ruins, mas não são, pois, além de transitórias, nos ensinam alguma coisa. Em contrapartida, situações boas também não devem suscitar a paixão da satisfação, porque tais situações também NÃO EXISTEM, sendo apenas partes dessa grande ilusão momentânea da nossa experiência carnal.

Conceitos como os descritos acima são muito difíceis de entender e, principalmente, de praticar. Isso devido à nossa visão limitada e tão focada no momento material que vivemos. Como dizia Krishna, devemos passar pela vida como o passageiro que vê a paisagem de dentro de uma carruagem. Sem paixões. Realizando as coisas porque temos que realizá-las; sem tristeza por não conseguir, e sem alegria quando conseguir. Se chegarmos nesse ponto, aí sim, realmente estaremos livres de toda e qualquer paixão, pois nada mais – nem coisas boas e nem ruins – poderão nos atingir. Esse é o grande objetivo de todo o nosso ciclo reencarnatório, e reencarnaremos tantas vezes quantas forem necessárias, até atingirmos esse ponto de evolução consciencial.

Contudo, enquanto não conseguimos atingir esse ponto – e falta muito para isso -, podemos contar com o auxílio de bons espíritos dispostos a ajudar na batalha contra as imperfeições, mas faz-se necessário que seja solicitado o seu socorro e reconheçam eles, de fato, o desejo sincero da melhora, pois, respeitando a Lei do Livre-arbítrio, não podem atuar sobre qualquer pessoa que assim não queira. Além disso, a busca sincera pela reforma íntima deve existir, pois só assim conseguiremos estabelecer o mínimo de sintonia mental com nossos amparadores, para que eles tenham condições de estender sobre nós suas energias positivas e, conseqüentemente, a ajuda de que necessitamos.

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