• Tata Luis

ERAM OS DEUSES SUPER-HERÓIS?


Quem nunca ouviu falar algo como: “Fulano tem jeito de ser filho de Xangô”, “Pelo seu gênio, só pode ser filho de Iansã”, “Beltrana tem o dengo da Oxum”, e por aí vai... Essas características constituem o que chamamos ARQUÉTIPO, ou seja, o padrão admitido como predominante em determinada personalidade, no caso, os Orixás e seus filhos.

Esses padrões são observados não apenas no contexto afro-religioso, mas em toda a sociedade humana. Há deuses do panteão greco-romano com personalidades semelhantes aos Orixás Yorubás. Na mitologia indígena há seres semelhantes arquetipicamente a deuses presentes nos mitos nórdicos. E até na literatura mundial os arquétipos estão presentes e são facilmente identificáveis. Isso porque eles refletem a nós mesmos, seres humanos que, independente do país, da região ou da época, seguimos determinados padrões de comportamento. Quem não consegue ver semelhança, por exemplo, entre a personalidade de Ogum e o comportamento de Dom Quixote de la Mancha? A luta por um ideal (ainda que imaginário), a paixão por sua Dulcinéia sendo levada às últimas consequências, a coragem para enfrentar o dragão por amor... características típicas (ou arquetípicas) também encontradas no Orixá Guerreiro.

São os arquétipos também que definiram na época da escravidão os santos católicos que seriam sincretizados aos Orixás, pelas suas condutas, aparências e personalidades. Carl G. Jung afirmava que arquétipo é aquilo que está no âmbito do consciente coletivo e tende a ser compartilhado por toda a humanidade. Sendo assim, não só nos mitos indígenas, nas crenças religiosas ou na literatura mundial os mesmos arquétipos podem ser identificados. Podemos também encontrá-los na ficção mais recente, nos filmes de Hollywood e até nos gibis e mangás. E um bom exemplo, onde eles são muito evidentes, é na personalidade dos super-heróis de Stan Lee.

SE SEU ORIXÁ FOSSE UM SUPER-HERÓI, QUEM ELE SERIA?

Quando Stan Lee e outros autores criaram os super-heróis que conhecemos, colocaram neles personalidades comuns facilmente encontradas no comportamento humano, justamente para tornarem seus heróis mais convincentes, mais realistas. Essas mesmas personalidades – ou arquétipos – podem ser encontradas no super-herói, na literatura, no seu vizinho, no deus nórdico ou no seu Orixá. E qual seria o super-herói com traços arquetípicos mais parecidos com os do seu Orixá (ou com o seu mesmo)?

Na equipe dos “Vingadores”, da Marvel, há várias personalidades interessantes. Uma das mais marcantes é a de Tony Stark, o Homem de Ferro. Impulsivo, esquentado, teimoso, atento às tecnologias, mulherengo e ainda com problemas com a bebida... Se fosse uma figura do mundo real, poderíamos afirmar que, sem dúvida, seria filho de Ogum, pois reúne características próprias deste Orixá, sem falar na ligação claríssima com seu elemento principal, o ferro! Além disso, como todo filho de Ogum, Tony Stark também “compra a briga” de qualquer amigo, e não mede esforços para atingir seus objetivos.

Se o arquétipo do Homem de Ferro se assemelha a Ogum, já repararam como o do Hulk se assemelha a Xapanã / Omolu / Obaluaiê? Bruce Banner (o alter-ego do Hulk) é uma pessoa super introspectiva. Tem um grande sentimento de culpa e procura se isolar da sociedade porque acha que pode ser prejudicial a ela. E, de fato, como o Orixá das palhas, sua aparência assusta! Quando as pessoas o veem, correm, mesmo quando ele está tentando ajudar. Aliás, tanto Bruce Banner quanto Hulk possuem um coração de ouro. Bruce não nega ajuda a ninguém, e Hulk possui uma doçura que chega a ser infantil de tão pura, de forma completamente antagônica à sua aparência repugnante (os aficionados por gibis sabem disso, melhor que os que somente assistiram aos filmes); características que o aproximam bastante do Senhor da Calunga.

No âmbito feminino, a heroína “Viúva Negra” surpreende pela sua força e bravura. É capaz de subjugar dezenas de homens apenas com suas habilidades marciais (ela não tem super-poderes). Luta como ninguém, de modo que sua feminilidade está sempre em segundo lugar, passa despercebida; não é o foco. Ela mesma deixa isso claro nas vezes que diz que não tem interesse em ter vida conjugal e nem pode ter filhos, já que foi esterilizada. Dessa forma, toda a sua força é canalizada para as suas missões, lembrando muito o arquétipo de Obá, a Orixá guerreira, muitas vezes de aparência mais masculinizada que as demais; aquela que, no amor, não é tão realizada quanto no trabalho, mas que não teme brigas de nenhuma espécie. Obá, segundo as lendas, foi a única Orixá que venceu Ogum em uma batalha.

Ao falarmos de Obá, lembramos de Xangô, Orixá do trovão e seu marido segundo os itans. Não há comparação melhor com ele que com Thor, o deus do trovão da mitologia nórdica, reinventado por Stan Lee para integrar - vindo diretamente de Aasgard - a equipe dos Vingadores. Thor, além de ter em comum com Xangô o domínio dos raios e trovões, tem também um conceito de justiça elevadíssimo. Tanto que seu martelo mágico, o “Mjolnir” não pode ser erguido por quem não tiver honra suficiente para isso. Mas, se Thor tem um martelo duplo (com dois macetes), Xangô possui um machado, seu Oxê, também com duas lâminas. Como Xangô, Thor é imponente, mas possui a fraqueza do orgulho, de achar-se muito importante (às vezes mais que Odin, seu pai), tendo sido por isso banido para convivência dos mortais.

Dentro da equipe dos Vingadores, além da Viúva Negra, há uma segunda figura feminina: a Feiticeira Escarlate. Wanda (seu alter-ego), à primeira vista, parece ser mais frágil que a Viúva Negra, e realmente, em termos de lutas e enfrentamentos corpo a corpo o é! Nunca veremos a Feiticeira Escarlate dando murros e pontapés, enfrentando o inimigo no corpo a corpo. Mas a veremos lutando um pouco à distância, manipulando com suas habilidades mutantes os elementos ao seu redor para atingir o objetivo desejado, o que lembra muito as características de Oxum, como a astúcia e o próprio “feitiço”, fatores característicos da Orixá dos rios, como atestam as muitas lendas a seu respeito. E, por falar em lendas de Oxum, em todas elas fica claro o encanto que essa Orixá desperta. Na equipe dos Vingadores, Wanda é a heroína que mais desperta paixões. Nos filmes ainda não ficou claro, mas quem conhece gibis, sabe que, dentro dos próprios Vingadores, há disputas pelo seu amor. Aliás, poderíamos dizer que ela verdadeiramente enfeitiça, com seu jeito doce e amável, a ponto de ter conseguido conquistar o amor do meio-androide Visão e do Gavião Arqueiro simultaneamente, gerando longas e intermináveis brigas nas páginas dos gibis.

Dou um doce para quem adivinhar com qual Orixá o Gavião Arqueiro se parece! Uma pista: ele usa arco e flecha! Sim, vemos o Gavião como uma cópia de Oxóssi, o caçador, não só pelo uso da mesma arma – o ofá – que manipula com maestria, mas também pelo comportamento. Clint Barton (seu alter-ego), como Oxóssi – e como todo bom caçador – não é uma pessoa muito impulsiva. Aliás, para ser bom atirador é necessário mesmo que seja mais ponderado, mais calmo e mais racional, tal como o Orixá da caça. Sua única fraqueza – e que lhe tira do sério – é a atração que sente pela Feiticeira Escarlate (muito evidente nos gibis, e pouco nos filmes). Por ela, vemos o comedido Clint perder a linha, enfrentando até o androide Visão. Essa história de amor até lembra a relação entre Oxóssi e Oxum, Orixás que, de tão próximos, são os únicos que, segundo as lendas, teriam gerado um terceiro Orixá (Logunedé), único que não foi criado por Oxalá.

Opa! E Oxalá? Bom, para encontrarmos um perfil semelhante ao pai dos Orixás, teríamos que deixar de lado um pouco os Vingadores e partir para outro grupo: os X-MEN! Dentre os mutantes, o que mais se assemelha a Oxalá é o próprio Charles Xavier, o mentor de todo o grupo. É ele quem tutela, orienta, desenvolve e apazigua os ânimos de seus alunos. É ele também que tem aquela plácida calma, que sabe de todas as soluções o tempo todo. O amor de Xavier pela Humanidade é tão grande que ele é movido pelo ideal de promover a união entre seres humanos e mutantes, num mundo utópico onde todos se respeitassem, se amassem e vivessem em harmonia. Ufa! É Oxalá puro! E é mais ainda quando vemos a relação que mantém com Magneto. Xavier discorda veementemente do vilão mas, ainda assim, mantem uma amizade sólida e respeitosa com ele. Ou seja, ele respeita a opinião do outro (que é diferente da sua) e, além disso, continua “amando” da mesma forma. Esse comportamento pode ser observado nos filmes, quando Xavier visita Magneto na prisão, joga xadrez com ele e ainda o aconselha – com ternura - a seguir caminhos melhores. Como Oxalufã, Xavier tem dificuldade de locomoção, defeito que é completamente compensado pelo seu grande poder mental, que abrange o mundo inteiro através da máquina chamada CÉREBRO. Epa Babá!

Ainda falando em X-MEN, vamos descrever Tempestade. Este é o codinome de Ororo Munroe, uma moça de origem queniana, descendente de sacerdotisas africanas, que cresceu órfã nas ruas do Cairo, no Egito, onde ganhava a vida praticando pequenos furtos. Ororo sofreu inúmeras privações, mas sempre superou todas com coragem e determinação. Nunca contou com ninguém para ajudá-la. Ía à luta, sem medo, sem receio! Quando seus poderes afloraram, mudou-se para o Quênia, onde passou a ser venerada pelos aldeões como a Deusa dos Ventos, já que seus poderes possibilitavam alterações climáticas. Por muitos anos, Ororo permaneceu por ali, fazendo chover onde houvesse seca, até ter sido recrutada por Charles Xavier. Tempestade, inquestionavelmente, parece ter sido inspirada em Iansã, a Orixá dos ventos. Os elementos que controla são os mesmos; a coragem é a mesma, e ainda tem origem africana. O único medo de Ororo é de locais fechados. Ela sofre de uma terrível claustrofobia por ter ficado soterrada quando criança, o que poderia nos remeter ao conceito de enterro e morte e, por conseguinte, de egun, com quem Iansã tem grande afinidade.

Para encerrar (senão ainda falaremos de super-heróis e Orixás até amanhã), vamos falar do mais controverso deles. Na verdade, não um super, mas um ANTI-herói. Sim, é isso mesmo. Ele tem super poderes, mas os métodos que emprega nem sempre são os mais éticos, afinal ele é sarcástico, irreverente, irônico e do tipo para quem “os fins justificam os meios”. Estamos falando de Deadpool, a criação de Stan Lee que mais se assemelha ao Orixá EXU. Deadpool é do tipo de faz piada de tudo, até do que seria trágico. Não se incomoda em dar vazão – declaradamente – às suas paixões. No filme, Deadpool explora bem sua sexualidade, tem vida noturna extremamente ativa e ainda convive naturalmente com usuários de drogas (é possível que use também). Talvez seja o personagem mais humanizado no real teor dessa palavra, tal como o Orixá Exu, com quem tem grandes semelhanças. Como este Orixá, Deadpool gosta de trabalhar livremente. Embora tenha recebido convite para integrar os X-Men, preferiu continuar carreira solo, pois gosta de liberdade e de agir por seus próprios métodos pouco convencionais. Como coincidência final, ainda se veste de preto e vermelho. Segundo suas próprias explicações, o vermelho é para disfarçar as manchas causadas pelo sangue dos inimigos que derrota. Uma figura esse Deadpool!

Se fôssemos ainda visitar outros heróis, teríamos material suficiente para discutir semelhanças com todos os demais Orixás. O mundo Marvel é riquíssimo em arquetipicidade e, fatalmente, descobriríamos coisas interessantes em Wolverine, Capitão América, Demolidor e Homem-Aranha, para falar só dos mais conhecidos... Como curiosidade, fica a “tarefa de casa”: Onde mais você encontra traços característicos do seu Orixá? Pense um pouquinho e comente este texto. Será um prazer descobrirmos juntos, afinal, nossos Orixás não são mutantes e nem criação de Stan Lee, mas que nos salvam de enrascadas, ah, isso eles salvam!

OS QUATRO ELEMENTOS

Quando Stan Lee criou os personagens do Quarteto Fantástico na década de 1960, claramente inspirou-se nos quatro elementos da natureza para dar-lhes os poderes.

Reed Richards (Senhor Fantástico), Sue Storm (Mulher Invisível), Ben Grimm (Coisa), e Johnny Storm (Tocha Humana) representam, respectivamente, os elementos Água, Ar, Terra e Fogo.

Reed Richards é maleável, flexível, quase liquefeito. É um homem movido por paixão, característica do elemento água (no caso de Reed, paixão pela ciência), o que traz sérios problemas ao seu casamento com Sue Storm, o que só vem a melhorar após o nascimento de seu filho Franklin Richards (só quem lê gibi sabe).

Já Susan ou Sue Storm representa o Ar. Ela fica tão transparente e leve quanto ele. Além disso, sua personalidade é mais ponderada que a de Reed. Ela acha que deve haver momentos para lazer, para romance e para trabalho. Razão, aliás, é característica desse elemento.

O Coisa, como a sua aparência bem retrata, é um aglomerado de rochas em forma quase humana. Ele é a força bruta, sem delicadeza, sem beleza, sem rodeios e nem meias palavras. Mas ao mesmo tempo, possui uma personalidade humilde e paternal, como a própria terra que pisamos todos os dias e que, ainda assim, nos dá o alimento de que precisamos. Essa característica o torna vítima constante das brincadeiras de mal gosto de Johnny Storm, o Tocha Humana.

Representando o elemento fogo, Johnny tem uma personalidade agitada, sexualmente inquieta, irritadiça e imatura. Vive se metendo em situações difíceis pela sua irreflexão, por agir mais por impulso (característica de fogo) do que por razão.

Contudo, apesar de quatro personalidades bem diferentes, o Quarteto Fantástico se dá bem, afinal, a natureza só está completa se houver os quatro elementos em harmonia, e é por isso que há um grande laço familiar-afetivo entre eles. Johnny é irmão de Sue, que é casada com Reed, que é o melhor amigo de Ben. A união dos quatro gera o equilíbrio necessário.

Após toda essa análise, devo admitir que FANTÁSTICO mesmo é o criador de tudo isso. Stan Lee colocou no Universo Marvel elementos arquetípicos básicos da nossa sociedade. Com uma reflexão um pouco mais profunda, não identificamos lá apenas os super-heróis que criou, mas o reflexo de nossa própria cultura, de nós mesmos e também do Orun ou de Aruanda, o mundo maravilhoso de nossos Orixás.

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