• TATA LUIS

A “MARMOTAGEM” E A IGNORÂNCIA DOS NOSSOS GUIAS


Outro dia vi em um programa humorístico na tevê o personagem “Ferdinando” dizendo: “-Fulana é tão falsa como a Pombagira que vai ao banheiro!”. Me acabei de rir! Quanta criatividade! Mas, depois, fiquei refletindo sobre quais seriam os limites REAIS para um fato acontecido dentro de um terreiro ser ou não ser considerado FALSO.

Desde que iniciei minha vida na Umbanda – e lá se vão mais de trinta anos – vi tanta coisa que daria uma vida. Lá no princípio da minha caminhada, observador que eu era, guardava em minha mente tudo o que via e ouvia dos Guias do terreiro. E lembro que uma das coisas que me chamava a atenção – lá na década de 70 - era a forma como eles se referiam às pessoas. Ao invés de falarem o nome próprio, utilizavam descrições das características físicas. Por exemplo: “vá chamar aquele filho louro”, ou “avise àquela filha magra...” No auge dos meus doze ou treze anos de idade, eu ficava pensando: será que não sabem falar o nosso nome? E mais: de tanto nos ouvirem chamando-nos uns aos outros, por que não aprendem?

Além de não utilizarem os nomes, também não acendiam seu próprio fumo. Não colocavam sua própria bebida no copo. Aliás, não era copo; era cuia! Se alguém comentasse algo sobre a tecnologia da época (telefone ou televisão), faziam cara de “não sei do que estão falando”... Enfim, uma ignorância surreal para quem se auto intitulava espírito superior. Será que lá de onde vêm (essa tal de Aruanda) não conseguem acompanhar a evolução do bicho-homem?

Com o tempo, aprendi que não é bem assim. Percebi que o comportamento dos Guias é moldado pela forma como as pessoas esperam que eles se comportem. E isso tem explicação: Se eles querem que sua palavra seja ouvida, não podem – de imediato – romper as crendices e superstições daquelas pessoas com quem interagem, ou poderão encontrar descrença e reatividade à sua manifestação e não conseguirem transmitir seus ensinamentos, que é o mais importante. Mais importante, inclusive, que toda essa limitação que as pessoas impõem aos seus Guias e eles pacientemente acatam.

Constatei isso ao longo das décadas. Vi as pessoas amadurecendo seu entendimento, e passando a compreender os Guias não como silvícolas ou aculturados realmente, mas como espíritos apenas REVESTIDOS da aparência rude e simples, porém com conhecimento superior. E, ao passo em que as pessoas modificaram suas concepções, observei as mesmas entidades se libertando das limitações que lhes eram impostas, passando a chamar as pessoas pelos nomes próprios, como “avise ao filho Fulano...” (que, aliás é bem mais prático, de rápido entendimento e maior eficiência), passando a acender seu próprio fumo (e com isqueiro!), servindo seu próprio copo (pra quê cuia?) e discursando sobre física quântica de uma forma que nem lembra o desconhecimento anterior de “telefones” e “televisões”.

Aí, um desavisado qualquer pode concluir: Oras, isso é porque esses Guias evoluíram! Ridículo! Quem evoluiu fomos nós, médiuns de Umbanda, que deixamos de lado nossas crenças limitantes, nossa certeza de que seríamos mais inteligentes que eles, e eles mais limitados que nós!

Mas isso, que pode agora parecer tão óbvio para você, leitor, por incrível que pareça, ainda não é para muita gente. Sim, tem muitas pessoas que ainda acreditam que um Caboclo ou Preto-Velho não sabe ler e escrever (mesmo com tantos livros psicografados por Pais Joãos e Vovós Bentas)! Tem gente que se admira de um Guia saber aumentar ou diminuir o volume de um “CD player” que esteja tocando em alguma ocasião no terreiro! Tem quem acredite que nossa tecnologia só a nós pertence, e que nossos Guias, que nos acompanham tanto (durante 24 horas por dia) não conseguem aprender (devem ter algum problema, porque até as crianças de hoje em dia sabem mais sobre tecnologia que eu).

Bom, falando por mim, eu não levaria a menor fé em um Caboclo que dissesse que me protege e me acompanha o tempo inteiro, mas que não tivesse capacidade de acender um isqueiro, aumentar o volume do som ou saber o significado da palavra “internet”! Iiihh, já estou imaginando aquele leitor mais obtuso pensando: “Internet? Desde quando o Preto-Velho sabe o que é internet? Como essa Umbanda está mudada...” E está mesmo! Graças a Deus! E mudada para melhor! Com pessoas mais conscientes de que nossos Guias tem capacidade muito maior que a nossa, que as limitações somos nós que impomos e que, conforme atesta a literatura espírita, a tecnologia existente no mundo físico é apenas um arremedo da existente no mundo espiritual. Sendo assim, quem é mais atrasado? Nós ou nosso Caboclo?

Mas, as pessoas que insistem em manter nossos Guias acorrentados à ignorância (como se o conhecimento fosse alguma heresia), antes de raciocinar, classificam tais atitudes com a palavra da moda: “marmotagem”. Que diriam, então, essas mesmas pessoas se me ouvissem dizer que vi com esses olhos que a terra há de comer a minha mãe carnal (que não falava nem inglês) falar em alemão com um consulente, incorporada com a Cabocla Iracema? Sim! “Meninos, eu vi!”. Seria “marmotagem” também?

E o interessante é que, a mesma pessoa que exige que um Guia seja ignorante, também exige que ele faça milagres, senão é “marmotagem”. Outro dia, no meu terreiro, um consulente disse que não acreditou na Pombagira. Não porque seus conselhos tenham sido falhos, mas porque depois do seu atendimento ele (o consulente) ainda permaneceu circulando pelas dependências do centro e viu quando a Pombagira desincorporou para a médium ir ao banheiro, e isso não pode (!?), afinal quando o médium está bem incorporado, a Pombagira pode beber o que quiser que a bexiga do médium não enche (a urina deve ser “eterizada”)! Se eu estivesse no whatsapp colocaria “KKKKKK” e carinha de “smile”. Um outro disse que se surpreendeu porque a Cabocla acendeu o seu fumo sozinha – e com isqueiro! Perceberam como a nossa ignorância AINDA limita nossos Guias?

Enfim, só sendo Guia mesmo para aturar com tanta paciência o nosso preconceito e limitações. E eles são tão pacientes e compreensivos de nossos bloqueios que, até hoje, utilizam expressões idiomáticas específicas para designar profissões, objetos e situações do nosso dia a dia, como se não soubessem a denominação correta. Tudo isso para nos agradar, e não porque não saibam. E, nessa representação de ignorância, o médico passa a ser o “homem da pena” ou o "casaca-branca", o policial o “canela preta”, o carro o “corre-corre”, o carnaval o “cara-suja”, homem vira “perna-de-calça”, mulher “rabo-de-saia”, e por aí vai.

E, para esclarecer, antes de qualquer conclusão precipitada, é óbvio que não espero que a Pombagira vá ao banheiro incorporada, mesmo porquê não há essa necessidade. E também não há como concordar com tantas coisas imorais, sujas e ridículas que são praticadas hoje em dia como se fosse Umbanda! Mas é bom saber que há muitas outras coisas que os Guias só não fazem para não serem desacreditados, e não por falta de capacidade ou conhecimento.

Resumindo, esclareço que SIM! Nossos Guias tem um conhecimento muitíssimo superior ao nosso em todas as áreas e, se agem como se fosse o contrário, é apenas resultado da representação do personagem do qual estão REVESTIDOS. Torço para que chegue o dia em que todos nós, médiuns umbandistas, saibamos definir com clareza o que é realmente “marmotagem” e o que é “libertação de preconceitos”.

Enquanto esse dia não chega, solidarizo-me com meu Preto-Velho que, quando alguém lhe entrega uma mensagem escrita, ele, muitas vezes, humildemente, assume o papel de iletrado e pede ao cambono para ler, simplesmente para não chocar pessoas presentes que ainda o tem como inculto e ignorante. Ops! Quem é mesmo ignorante? Que diria o Ferdinando?

Amplexos,

Tata Luis

#pretovelho #caboclo #marmotagem #pombagira

706 visualizações

A CENTELHA DIVINA, por ser uma Missão Umbandista e por ter como referência a prática da caridade, do amor e do respeito ao próximo, seguindo as sagradas Leis de Umbanda, não exerce cobrança financeira de qualquer tipo, por qualquer atendimento ou trabalho realizado, bem com não realiza o sacrifício de qualquer animal, nem utiliza qualquer coisa de origem animal em seus rituais.