• Tata Luis

O NOME DO SEU EXU


Assim como com qualquer outro Guia de Umbanda, os Exus e Pombagiras integram falanges, sub-falanges e grupos de trabalhos específicos, onde cada um desses grupos é composto por centenas (alguns estudiosos chegam a falar em milhares) de espíritos que se apresentam de forma muito semelhante, utilizam o mesmo arquétipo e são conhecidos pelo mesmo nome. Isso quer dizer que na falange, ou no grupo de trabalho do Exu Tranca-Ruas das Almas, por exemplo, há centenas de outros espíritos que, ao médium clarividente, aparecerão com perfis muito parecidos, adotarão formas de comportamentos semelhantes e serão todos conhecidos pelo mesmo nome.

Se, em apenas um desses grupos de trabalho há centenas – ou milhares – de trabalhadores, a pergunta que não quer calar é: “e quantos grupos de trabalho, falanges e sub-falanges existem?”. Ou, em outras palavras, em se tratando apenas de Exus e Pombagiras, que são o foco de nosso tema, quantos tipos diferentes e com nomes diferentes existem? Na verdade, não temos como precisar essa quantidade, mas sabemos que são muitos. E para você ter uma ideia, ainda que você lembre de todos os nomes de exus que conhece, esse número ainda será bem inferior à quantidade real. E isso porque nós NÃO CONHECEMOS todos e, para falar a verdade, em alguns casos, infelizmente, somos nós, os próprios médiuns, os responsáveis por essa deficiência.

Nós, médiuns, somos os intérpretes de nossos Guias. É através de nós que as mensagens deles são traduzidas nos terreiros. Não há, portanto, outra forma de conhecer os seus nomes que não seja pela nossa própria mediunidade, seja ela intuitiva, de incorporação, clarividência ou outro tipo qualquer. Mas, como bem sabemos, nenhum médium é um autômato e, muitas vezes, a mente subconsciente poderá vir a interferir nas comunicações, principalmente no estágio inicial do desenvolvimento mediúnico ou naqueles momentos de instabilidade emocional pelos quais, vez ou outra, todos estão sujeitos a passar. A essas interferências involuntárias, chamamos ANIMISMO e, quanto mais desenvolvido o médium, menor será a chance dele acontecer. Mas, muitas vezes, antes de chegar a essa fase mais avançada, enganos podem acontecer, especialmente se o Guia for solicitado a dizer seu nome antes de o médium estar apto a tal, de modo que sua mente subconsciente possa ainda se sobrepor à comunicação do Guia e interferir sobre a real apresentação daquele Exu ou Pombagira; fazendo, por exemplo, com que o Exu “X” seja identificado, erroneamente, como “Y” ou “Z”. E isso é muito comum, e não deve ser entendido como algo feito de forma intencional. Aliás, o próprio animismo – é bom lembrar - é um fenômeno que acontece independente da vontade do médium. Ele NÃO QUER interferir sobre a comunicação e NÃO É culpado por essa interferência! Esse é um processo natural e que vai sendo superado ao longo de todo o desenvolvimento; e, por isso mesmo, há o desenvolvimento, inclusive. Se todas as comunicações pudessem ser entendidas como 100% confiáveis desde a primeira incorporação, não haveria necessidade de desenvolver a mediunidade.

Mas, uma vez que o Exu “X” tenha ficado conhecido como “Y”, nem sempre - ainda que no futuro - valerá a pena mexer nessa crença estabelecida e enraizada. Pode ser que, ao tentar elucidar e explicar que o nome real daquele Exu é “X” e não “Y”, os prejuízos venham a ser maiores que deixando como está; pois, dependendo do entendimento do médium – e até de sua vaidade -, qualquer mudança desse tipo poderá mexer com a sua estabilidade emocional, com sua estrutura psicológica, autoconfiança e, possivelmente, com a qualidade das incorporações dali por diante, de modo que, muitas vezes, o próprio Exu “X” aceita ficar sendo conhecido – através daquele médium e por toda a sua vida – como “Y”. E nunca ninguém irá saber que não é; a não ser um médium clarividente ou intuitivo que o consiga observar. Embora essa situação não seja a mais correta, às vezes é a necessária, ou seu trabalho poderá ser dificultado ou até interrompido. É por esse motivo que NÃO ESTIMULAMOS em médiuns novatos que seu Guia tente dizer seu nome, seu local de regência, o Orixá de quem é capangueiro ou qualquer outra coisa que possa ser considerada DEFINITIVA. O médium, não estando maduro para isso, sua mente subconsciente poderá se sobrepor à comunicação do Guia justamente naquele instante, e ele poderá passar a acreditar piamente que o que saiu de sua boca é verdadeiro - podendo não ser - e dificultando a correção no futuro.

Nesse processo de a mente subconsciente interferir sobre a apresentação do nome do Guia, é natural que o inconsciente pesquise nos seus registros de memória os nomes mais comuns, de fácil lembrança, mais famosos ou que, por algum motivo tenham adquirido um valor especial para o médium. Essa é a razão pela qual se vê o excesso de repetição de determinados nomes específicos. E, quanto mais eles são repetidos, mais conhecidos se tornam. E, quanto mais conhecidos, maior a probabilidade de serem repetidos outras vezes, num processo cíclico que acaba fazendo com que alguns nomes passem a ser encontrados com MUITA facilidade e frequência nos terreiros, enquanto que outros acabem sendo esquecidos. Qual o terreiro que não possui um – ou vários – Exu Tranca-Ruas, Maria Padilha, Tiriri, Caveira e Maria Molambo? Se estendermos essa análise aos outros Guias, veremos o mesmo se repetir com Cabocla Jurema, Caboclo Sete Flechas, Mariazinha da Praia, Pedrinho e Pai Joaquim de Angola. É real! Esse é um fenômeno que acontece todos os dias e que requer a atenção dos dirigentes para minimizar sua ocorrência entre os médiuns mais inexperientes.

No exemplo que dei, citei cinco falangeiros, entre Exus e Pombagiras que são muito conhecidos atualmente. E a internet e os veículos de comunicação têm grande participação nessa disseminação. Mas, no passado, nem sempre foi assim. Até meados da década de 1960, as informações não circulavam com tanta facilidade e velocidade e, por isso, os médiuns não tinham como ser influenciados pelo conhecimento de nomes de entidades de outras pessoas, o que aumentava a probabilidade de sua mente ser mais passiva no momento da transmissão do nome pelo próprio Guia, favorecendo a comunicação do nome real e correto. Por isso, havia naquela época, nomes de Guias que hoje estão praticamente esquecidos ou de quem já não se ouve falar mais. Esses – de quem não se ouve falar mais – não deixaram de existir, mas seu nome verdadeiro passou a ficar oculto debaixo do nome de outro Exu ou Pombagira mais famoso, que a interferência anímica o tenha forçado a aceitar.

Particularmente, nesse sentido, tenho um exemplo a dar: Trabalho com um Exu que tem um nome pouquíssimo conhecido e até de certa dificuldade de memorização, que é o Exu Kaminaloá. Certa vez, minha esposa veio pedir um conselho a esse Exu, para uma amiga que estava impossibilitada de vir pessoalmente ao terreiro. Quando ela falou o nome da moça, o Exu deu uma sonora gargalhada e falou “eu sou o Exu dela; só que ela não me conhece pelo meu nome verdadeiro; ela me chama de Tiriri!”. Depois disso deu todos os conselhos e orientações necessárias, como se realmente a conhecesse há muito tempo. No dia seguinte, minha esposa transmitiu todos os recados à amiga, e ela ficou surpresa com a riqueza de detalhes e com o teor da conversa. Ao final, minha mulher lhe informou que tudo aquilo tinha sido dito pelo “Exu Tiriri”. A moça, bem surpresa e emocionada, respondeu: “é o meu Exu!”.

Então, como dizíamos, no passado nossos Guias encontravam menos resistência de nossa mente subconsciente e conseguiam dizer seu nome verdadeiro com mais facilidade. Por isso, em algumas fontes até meados do século vinte, encontramos muitos nomes que, hoje, soam como estranhos aos terreiros. Em 1964, por exemplo, depois de dez anos circulando terreiros, conversando com entidades e fotografando pontos riscados, a Editora Eco lançou uma obra que apresentava centenas de nomes diferentes de vários Guias, incluindo Exus e Pombagiras. Esse livro, cuja versão mais recente apresenta 3000 pontos riscados e cantados na Umbanda e no Candomblé, segundo informações dos distribuidores, foi analisado e aprovado pelo Círculo de Escritores e Jornalistas de Umbanda do Brasil, pela Ordem dos Graduados de Umbanda (Ogum), pela Escola Superior Iniciática de Umbanda do Brasil, pela Federação Espírita Umbandista do Brasil, pela Associação Federativa de Umbanda do Brasil, pela União das Seitas Afro-Brasileiras e pelo Movimento de Unificação Nacional Pró-Religião de Umbanda (Munru), o que fortalece a aceitação da autenticidade, senão de tudo, pelo menos de parte desse compêndio realizado nos terreiros há mais de cinquenta anos. Além disso, particularmente, já tive a oportunidade de presenciar entidades riscando pontos idênticos aos ali registrados ou se apresentando com alguns daqueles nomes citados, sem que os médiuns os conhecessem, o que reforça ainda mais a credibilidade, pelo menos em algum nível, do seu conteúdo.

Quando esse livro foi lançado, já trazia a descrição de centenas de nomes diferentes de Exus e Pombagiras que hoje não são nem conhecidos em terreiro nenhum. E sabe a “Maria Padilha” que citei no exemplo de nomes que se repetem com frequência? Pois é, essa é apenas UMA dentre as dezenas de Pombagiras ali citadas. O mesmo acontecendo com a Maria Molambo e os Exus Tiriri, Caveira e Tranca-Ruas. Mas lá, nesse livro e em outros registros da época, além desses, aparecem Exus com nomes como “Galhofeiro”, “Golei”, “Perneta”, “Bacharel”, “Lambe-Brasa”, “Come-Tuia”, “Tranca-Cruzes”, “Rei da Ilha”, “Sete-Corcovas”, “Cruza-Pé”, “Conde” e muitos outros de quem hoje nem se ouve falar. E o mesmo acontecendo com as Pombagiras. Você já escutou falar de Pombagira “Pitonisa”, “Lava-Trapos”, “Marquesa”, “Cortesã”, “Tagarela”, “Andarilha”, “Andilhana”, “Sete-Anéis” e “Fidalga”? Pois é; esses nomes estão lá, lado a lado com Maria Padilha e Maria Molambo, em pé de igualdade, com o mesmo nível de importância, como eram considerados naqueles tempos. Mas desapareceram de nossos terreiros, enquanto que Molambos e Padilhas se proliferaram por aí...

Além disso, temos observado – e algumas correntes até estimulam – que Exus e Pombagiras que se apresentam ao clarividente ou ao intuitivo com vestes simples ou esfarrapadas são chamados genericamente de “Molambos”. Então, aquela Pombagira que ali é conhecida como “Maria Molambo”, pode, na verdade, não ter esse nome originalmente, mas pode ser, por exemplo, “Pombagira Maltrapilha”, “Pombagira Carvoeira”, “Pombagira Esfarrapada”, ou outra semelhante; e que teve que aceitar ser chamada com a denominação de “Molambo” porque foi o nome que ficou mais conhecido, dentre as Pombagiras que se vestem de forma similar, sendo-lhe, por isso, imposto como se fosse o seu. O mesmo – e em sentido contrário – acontece com as chamadas “Padilhas”. Observamos que muitas Pombagiras que se apresentam com vestes finas e de boa aparência acabam sendo classificadas com esse nome. Então é possível que aquela “Maria Padilha” não seja, verdadeiramente, A “Maria Padilha”, mas sim a que, antigamente, era conhecida como “Pombagira Baronesa”, “Pombagira Elegante”, “Pombagira Soberana”, “Alteza” ou outras desse tipo, mas que agora teve que se contentar em ser chamada por um nome que, originalmente, não era seu. Esse tipo de classificação entre “Molambos” e “Padilhas” pode até ser funcional em alguns casos; mas, se por um lado simplifica para os médiuns inseguros (porque reduz a lista de possibilidades de nomes), por outro lado nos faz perder, em algum grau e talvez de forma definitiva, a essência original dos falangeiros de Umbanda, fazendo cair no esquecimento os nomes VERDADEIROS de algumas falanges e grupos de trabalho. Além disso, essa prática acaba não sendo a melhor, já que há arquétipos que não correspondem exatamente nem à aparência de Molambo e nem de Padilha, não sendo, portanto, completo e abrangente por si só! Por isso, o melhor mesmo seria que, desde o princípio do desenvolvimento, o médium fosse instruído a apassivar a sua mente, de modo que ela não criasse qualquer tipo de barreiras à comunicação do Guia, facilitando-lhe dizer seu nome correto desde sempre.

Uma coisa importante para isso, é que o médium se habitue, pelo menos no início, a NÃO procurar conhecer o maior número de nomes de entidades possível, para que sua mente subconsciente não se impressione e não comece a acreditar ser este ou aquele o nome do seu Guia. Afinal, se o nome correto não for nenhum daqueles com que a mente “cismou”, a entidade terá muito maior dificuldade em corrigir. É bem mais fácil escrever na lousa vazia do que apagar toda aquela informação que já está escrita para depois escrever a informação correta. É por isso que nossos antecessores umbandistas tinham mais facilidade nesse ponto; a mente deles estava vazia de nomes e, por isso, nem atribuíam ao seu Guia um nome já conhecido e nem contestavam um que lhes viesse à mente durante a incorporação.

Mas, como dissemos lá no início, usar um nome que não é o correto não chega a ser grande problema para o Exu ou para a Pombagira que, afinal de contas, só querem trabalhar. Mas isso NÃO É problema enquanto for somente isso mesmo: uma simples troca de nomes; que é o que acontece quando o médium realmente recebe e trabalha com o SEU Exu, apenas chamando-lhe por um nome errado. O problema começa a acontecer quando o médium tem fixação e admiração por um OUTRO Exu e estabelece com ele laços psíquicos mais fortes que aqueles construídos com o seu próprio Exu, passando a receber e a trabalhar com uma entidade que não é a sua. Aí, nesse caso, ele enquizilará o seu verdadeiro Exu e, certamente, terá problemas.

Para evitar tudo isso, o caminho mais seguro é o médium não ter pressa em saber o nome de seus Exus; deixar que a coisa aconteça a seu tempo, sem interferir no processo natural do desenvolvimento; e, um belo dia, quando sua mente estiver passiva o suficiente, seu Exu e Pombagira o surpreenderão e dirão seus nomes para alguém presente. Até lá, caso precise ou deseje conversar com eles, bastará ao médium pensar em “meu primeiro Exu” ou “minha primeira Pombagira”. Afinal, o médium poderá ainda não saber quem eles são; mas eles, certamente, sabem exatamente quem seu médium é, e estarão prontos a auxiliar, sempre que preciso, independentemente de seu nome ser conhecido ou não.

Amplexos,

Tata Luis

#Exu #Pombagira #Padilha #Molambo #Caveira #TrancaRuas

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